Como é que isto aconteceu?

A última sondagem da TSF, DN e JN tem vários indicadores a que sobretudo PS e PSD deveriam estar atentos. Uma sondagem não é uma eleição. Nem substitui o voto em urna, decidido diante das circunstâncias e no momento exato em que se vota. Mas, há décadas que as sondagens regulares e fora dos períodos eleitorais revelam tendências, perscrutam a opinião e sensibilidade do eleitorado e deveriam ser tidas em conta como indicadores da forma como a sociedade olha para o estado da nação.

À habitual pergunta "se as eleições legislativas fossem hoje..." e, repito, não são, mas "se fossem hoje", PS e PSD, juntos, teriam apenas 55% dos votos. Há outros dados relevantes e que merecem análise mais profunda e fina. Mas só este dado bastaria - ou deveria bastar - para que os dois grandes partidos de Governo fizessem uma reflexão sobre o estado da democracia ou, noutra vertente, o que pensam os eleitores do estado da democracia.

Nos quase 50 anos de regime democrático, PS e PSD foram sendo, sucessivamente e em alternância, chamados a governar. O chamado "centrão", que teve expoente máximo no governo do chamado "Bloco Central", é visto como algo indiferenciado e invertebrado. Não creio. Durante quase meio século, estes dois partidos reuniram quase 80% dos votos expressos. O número foi descendo, mas manteve-se sempre ou quase sempre acima dos 70%.

O lado moderado, conciliador, europeísta, foi sempre mais forte do que as franjas, ditas revolucionárias, ou os arremedos de fascismos ou populismos.

Quando, nesta altura, PS e PSD, juntos, conseguem apenas um pouco mais de metade das intenções de voto, estamos a assistir a um fenómeno que, como sempre, chega atrasado a Portugal e que já aconteceu em vários países europeus. França, Grécia e Itália, por exemplo, assistiram ao declínio dos seus grandes partidos tradicionais. Foram substituídos por movimentos, muitas vezes unipessoais, que se desagregam depois de um ato eleitoral, que não têm substância ideológica ou cultura política, apenas oportunismo e marketing.

PS e PSD não serão sempre os partidos de governação. Sê-lo-ão apenas e enquanto os eleitores quiserem. A democracia é isto. A livre escolha dos eleitores. Há várias explicações para a perda de relevância dos dois maiores partidos.

No caso do PSD, a longa travessia no deserto, a dificuldade em apresentar-se como verdadeira alternativa, a incapacidade de convencer os eleitores que perdeu de que um programa social-democrata, humanista e reformista é capaz de dar resposta aos problemas da sociedade.

Do lado do PS, o desgaste de sete anos de governação, a desilusão do eleitorado, que outorgou uma maioria absoluta a um governo que parece não saber o que fazer com ela e a sensação de que o governo não governa, limita-se a gerir os casos que vão surgindo, numa dança de cadeiras de governantes nunca antes vista, não por causa da oposição, mas por crises que surgem de dentro do próprio executivo.

"Os partidos tornaram-se apenas máquinas de poder", disse na TSF e no DN, a semana passada, David Justino, ex-ministro, antigo deputado do PSD e número dois de Rui Rio nos seus quatro anos de liderança do partido. O mesmo diagnóstico é feito por "senadores" socialistas, preocupados exatamente com o mesmo fenómeno no PS.

As sondagens, entre outros méritos, vão dando indicações. Pelo menos não podem dizer que não foram avisados. E, se um dia destes acordarmos depois de uma eleição e tivermos um governo radical, por favor dispensem-nos da cara de espanto e da pergunta: "Como é que isto aconteceu?"

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