Confinamento e percepção do risco: a moral no lugar da ciência

"As pessoas respeitaram menos este segundo confinamento - que está finalmente a chegar ao fim - do que o primeiro, em 2020." Daniel Oliveira suporta a afirmação com dados: menos 30%, segundo a Escola Nacional de Saúde Pública. Na última sexta-feira - detalha o jornalista - quase 60% dos portugueses saíram à rua, só 17 pontos percentuais dos níveis pré-pandemia. No fim de semana anterior, quase quatro milhões de portugueses aproveitaram o sol, reforça o jornalista. "Os portugueses saíram mais nas primeiras semanas de fevereiro do que em janeiro, quando o confinamento foi decretado. Todas as semanas sai mais gente de casa."

O cronista lembra que um anúncio de alívio só colocará mais pessoas a circular. "Se as pessoas mantiverem a devida distância e usarem máscara, nem sequer é mau para a sua saúde", ironiza, criticando: "Os portugueses são irresponsáveis, não compreendem a gravidade da situação, são insensíveis ao esforço enorme dos profissionais de saúde, nada disso."

"Está a acontecer o que os especialistas em comportamento sabiam que aconteceria nestas circunstâncias", assinala Daniel Oliveira. O início da pandemia em Portugal, em março de 2020, foi o "susto, o desconhecido". Seguiram-se "as imagens de Itália", num momento em que, em território nacional, ainda se vivia "alguma normalidade".

O cronista aponta que agora se sente um "cansaço pandémico", com "pessoas psicologicamente exaustas" e situações económicas, sociais e familiares "insustentáveis", mas trata-se de "mais do que isso", tal como explicaram especialistas de Saúde Pública. "Estamos expostos ao risco há muito tempo. Habituámo-nos a ele, e adaptámo-nos. Ninguém consegue viver com medo durante um ano."

Daniel Oliveira analisa que "quem mantém esse sentimento acaba por ir mesmo abaixo".

"É por instinto de sobrevivência que perdemos o medo", reconhece. O medo é depois, perante o cansaço, substituído por ansiedade e angústia, mas "nada que leve à reação radical de março do ano passado".

O cronista acredita que a comparação já usada de quem vai viver para as imediações de um aeroporto se aplica. "Nos primeiros dias, não dorme, com o barulho. Depois deixa de ouvir os aviões. Sabe que eles lá estão, a aterrar, mas adapta-se a isso."

Repetir inúmeras vezes os números, mostrar "imagens impressionantes", incutir "medo permanente" tem o efeito oposto, sustenta o jornalista. "Banaliza os números, as imagens e o medo. Basta pensar no que sentimos quando morreram 66 pessoas nos incêndios de Pedrógão e 114 no conjunto dos incêndios de 2017, e o que sentimos no final de janeiro quando tínhamos o triplo de mortos por Covid por dia."

Na perspetiva do jornalista, "intensificar o bombardeamento de números e de imagens chocantes é aumentar o limite da nossa resistência e da nossa tolerância". Daniel Oliveira explica que ninguém se choca com o que é tornado banal, "por mais horrível que seja essa banalidade".

Com exceção de algumas situações isoladas, Daniel Oliveira constata que não há em Portugal um fenómeno de "resistência ativa às medidas restritivas", como acontece em Itália, na Alemanha ou em Espanha. "Há apenas um afrouxamento de cuidado", admite, notando que vários especialistas avisaram que tal ocorreria. "Essa é a razão por que o tempo de confinamento é tão elástico como a vontade dos políticos e dos médicos, ainda menos num país pobre e com poucos apoios sociais. Para lidar com este afrouxamento, comentadores e políticos têm optado por responsabilizar o comportamento individual das pessoas, o que leva a um discurso sobre os sacrifícios dos profissionais de saúde, o risco para os mais velhos e a responsabilidade de cada um."

Daniel Oliveira compreende que "está tudo moralmente certo", mas comenta que é "inútil", porque assenta na explicação de que o ser humano se move apenas tendo por base as vontades individuais e as escolhas racionais. Os "fenómenos sociais e psicológicos" também justificam atitudes e comportamentos.

"Em toda a comunicação das entidades públicas, em todos os raspanetes dos responsáveis políticos, em todas as missas feitas por comentadores e apresentadores de telejornais, parece haver uma total incompreensão destes fenómenos, e a razão é simples: a recusa da ciência." O cronista salienta que o poder político, a comunicação social e as autoridades sanitárias "assumiram que, para lidar com uma pandemia, precisamos de epidemiologistas, pneumologistas, virologistas e especialistas em saúde pública", mas que os poderes executivos implementam medidas sem ter em conta o aconselhamento de especialistas em ciências do comportamento. "O Governo não é aconselhado por um único psicólogo, sociólogo, antropólogo. Quer decidir o comportamento de dez milhões de portugueses sem recorrer a um único especialista em comportamentos sociais e humanos. São especialistas em vírus que indicam como, quando e durante quanto tempo se vai confinar, como se os humanos fossem objetos inertes, e, à falta de melhor, os políticos substituem a ciência pelo discurso moral, ralhando com os portugueses, descobrindo que as pessoas não confinam quando estão perante evidência científica do perigo."

Daniel Oliveira acredita ser tempo de serem ouvidos os que representam "a parte da ciência que tem sido ignorada", a que "nos diz que o confinamento tem limites a partir dos quais deixa de funcionar, e que esses limites não se esticam com discursos morais".

* Texto redigido por Catarina Maldonado Vasconcelos

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