Da hipocrisia da política

Há pessoas para tudo, em todo o lado, em todos os setores e a política, claro, não é exceção.

Há pessoas com capacidades extraordinárias. As que dizem isto e o seu contrário no espaço de 30 segundos, como se nada fosse. As que mentem com quantos dentes têm na boca, com o ar mais credível. As que criticam os outros por aquilo que elas próprias fizeram. E as incoerentes. Que sabendo que estão a ser incoerentes, conseguem dizer tudo sem se rir. Há pessoas para tudo, em todo o lado, em todos os setores e a política, claro, não é exceção.

Na rentrée política do CDS, Assunção Cristas decidiu tentar restaurar a bandeira do partido dos contribuintes. Já tinha tentado outras bandeiras antes, mas como nenhuma colou, foi desenterrar esta que Paulo Portas ergueu durante anos mas acabou por queimar assim que chegou ao Governo em 2011.

Assunção Cristas fez, no essencial, um aviso ao país. "A classe média que não se iluda: quando a esquerda unida vier dizer que só quer tributar os ricos, é ao bolso da classe média que vai buscar o dinheiro". Já se está a rir? Pois. Mas Assunção Cristas conseguiu dizer isto sem se rir. Em quatro anos, o governo do qual a presidente do CDS fez parte não se limitou a ir ao bolso da classe média. Em grande medida exterminou essa classe. Do "enorme aumento de impostos", à eliminação da progressividade nos escalões de IRS, passando pelos cortes nos salários e pensões, é escolher qual destas medidas destruiu mais a classe média em Portugal.

O PSD e o CDS quiseram (e bem) explicações do Governo sobre as viagens dos Secretários de Estado ao Europeu de França, pagas pela Galp. Afiaram as facas e a língua para falarem de moral, de ética, de princípios a que os membros do Governo deviam obedecer, criaram um fogo-de-artifício político e gozaram o prato. Pequeno detalhe.

No PSD pelo menos três deputados aceitaram a "oferta" de viagens ao Europeu de França. Não foi a Galp que ofereceu, foi Joaquim Oliveira. Acresce que os três Secretários de Estado estão longe de serem os primeiros membros de governos a aceitarem viagens pagas por grandes empresas a eventos deste género. Não que isso os desculpe, pelo contrário. Mas a prática é corrente há muitos anos. Seja para jogos de futebol, para festivais ou para outro tipo de eventos. As grandes empresas, como a Galp, têm listas de pessoas (não apenas de políticos) que são convidadas com alguma regularidade para eventos deste tipo. PSD e CDS têm telhados de vidro e, quando assim é, talvez fosse mais prudente não atirar pedras.

A incoerência nesta matéria estende-se também ao PS. Segurou os Secretários de Estado e criou uma cortina de fumo com o código de conduta para membros do Governo. Estivesse o PS na oposição e o discurso seria igual ao do PSD e do CDS, como o foi tantas vezes no passado, por casos semelhantes.

O Bloco de Esquerda criticou. Não andou propriamente um mês a falar do assunto, mas criticou sem precisar de encontrar outras escapatórias. Já o PCP, também criticou, mas mais baixinho. Desconfortável que está nesta geringonça, foi recuperar o caso da contratação de Maria Luís Albuquerque pela Arrow e, com isso, atenuou o tom das críticas ao Governo que apoia.

Podíamos ficar aqui uma eternidade a dar exemplos mas seria demasiado fastidioso. Estes, mais recentes, chegam para concluir que a coerência é provavelmente uma das maiores lacunas na política e na sociedade em que vivemos. E é essa falta de coerência que dá, muitas vezes, origem à demagogia, barata, dos que apontam o dedo aos outros só porque sim, dos falsos moralistas, dos que confundem a beira da estrada com a estrada da beira, de propósito, para conseguir um ganho político imediato. As duas coisas, a incoerência e a demagogia, afastam os eleitores. E era tão bom que os partidos percebessem isso.

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