Da incerteza à certeza absoluta

Vou começar por uma confissão. Ao final da tarde de ontem tinha um título provisório para este artigo: Incerteza pós-eleitoral. Estava totalmente enganado. Estávamos todos possivelmente. Dos inúmeros cenários pós-eleitorais que li no dia de ontem nenhum antecipava uma maioria absoluta do Partido Socialista.

Mas é isso que temos: pela segunda vez na história da nossa democracia o Partido Socialista terá uma maioria absoluta e, desta vez, não teremos debates quinzenais. Houve um terramoto à esquerda, com o PS a demonstrar uma enorme capacidade de captar o voto útil do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista. Dificilmente as lideranças do Bloco e do PC irão sobreviver a este resultado desastroso. Paradoxalmente, no entanto, a maioria absoluta do PS vai permitir a Bloco e PC regressar a uma maior contestação política e social, onde se sentem politicamente mais confortáveis e poderão, a prazo, vir a beneficiar politicamente disso.

O outro paradoxo do resultado eleitoral é que a direita cresce, mas também sofre um terramoto. O CDS desaparece, sendo o seu espaço político ocupado, em boa medida, mas de formas muito diferentes, pelo Chega e Iniciativa Liberal. Esta reconfiguração do espaço político da direita e centro-direita (no caso da IL) representa um desafio para o PSD que é também um desafio para a nossa democracia.

O falhanço eleitoral do PSD demonstra quão difícil é esse desafio. Para ser alternativa política em Portugal, o PSD sempre necessitou de conquistar o centro, ao mesmo tempo que ou conseguia o voto útil da direita ou se coligava a essa direita. Mas a natureza populista de uma parte desta nova direita, e a nova repartição sociológica e geracional do eleitorado (com mais de 60% dependente, de alguma forma, do Estado) torna muito difícil ao PSD fazer esta quadratura do círculo. Rio tentou, de alguma forma, reconciliar estes dois objetivos. Por um lado, adotou um discurso reformista, mas tranquilizador para esse eleitorado ao centro, em que parte importante depende do Estado, sem falar de ruturas ou colocar o foco num projeto de mudança transformacional. Por outro lado, manifestou alguma ambiguidade na forma de lidar com essa outra direita: por vezes, pareceu procurar o voto útil, outras vezes pareceu querer manter em aberto as possíveis coligações pós-eleitorais, chegando a falar de uma geringonça de direita. Excluiu o Chega, mas, a acreditar na evolução das sondagens, não foi eficaz a desmontar a colagem ao Chega que o PS lhe fez na última semana.

Enganam-se, no entanto, aqueles, no meu partido, que julgam que o nosso problema é apenas de liderança, não é. Neste novo contexto partidário, e com a atual composição sociológica do país, o PSD enfrenta um verdadeiro dilema: entre um discurso ao centro que lhe parece impedir de conquistar o voto útil à direita e uma abertura a uma certa direita que lhe parece impedir de conquistar o centro. É verdade que Rio não conseguiu resolver este dilema com sucesso, mas é um erro presumir que ele se resolve apenas com uma mudança de liderança. Exige uma reflexão bem mais profunda sobre o posicionamento político do partido e como readquirir a capacidade de federar o campo do centro e direita neste contexto bem diferente que descrevi.

Que o PSD consiga ter sucesso a responder a este desafio não interessa apenas ao PSD, interessa a todo o país. A verdadeira democracia é feita de alternância. A própria legitimidade daqueles que acedem democraticamente ao poder depende da existência de uma alternativa com reais possibilidades de lhes suceder. Há alguns anos, alertei para o risco de a prática política do nosso regime estar a caminhar para uma situação em que o PS, ainda que por via democrática, se tornava um partido permanentemente no poder, aquilo que se designa de mexicanização do regime. O risco é real. Quando terminar o ciclo legislativo que agora se inicia o PS terá ocupado o poder em 25 dos últimos 31 anos.

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