Dar prioridade às escolas

Daniel Oliveira defende, no seu espaço habitual de Opinião na TSF, que "é possível abrir as escolas, com protocolos sanitários rígidos", até porque "foram eles que evitaram até agora que as escolas fossem até agora um foco relevante da pandemia".

Apesar de admitir que "o encerramento das escolas parece ter contribuído para a diminuição de casos, porque garantiu a circulação de menos pessoas", o jornalista argumenta que não é uma medida "indispensável" para controlar a crise sanitária. "E será ainda menos se aplicarmos a testagem regular e em massa, coisa que não estamos a fazer", acrescenta.

O cronista realça os custos do encerramento das escolas para a saúde mental dos jovens e crianças e para "as suas futuras capacidades cognitivas, sociais e emocionais".

"O ensino à distância é muito menos eficaz do que o ensino presencial e tem efeitos estruturais na desigualdade." Daniel Oliveira socorre-se de um estudo que aponta que os alunos britânicos "perderam, no primeiro confinamento, dois meses de aprendizagem em relação aos seus colegas do ano anterior". Os mais pobres, porém, "perderam sete meses".

O jornalista não tem dúvidas de que "o ensino à distância exige casas melhores, ligações melhores à internet, e, acima de tudo, maior acompanhamento dos pais". Em Portugal, "uma das sociedades mais desiguais da Europa", o encerramento fez perder a escola a muitos milhares de crianças e jovens, que ficarão "irremediavelmente para trás", fundamenta o cronista.

"Apesar de sermos dos países mais desiguais e de precisarmos ainda mais da escola como elevador social, fomos dos países da União Europeia que mais tempo encerrou as escolas do ensino básico, em 2020", salienta. "Não conseguimos ponderar, como outros, o equilíbrio desta medida, e isso deixará marcas numa geração e no futuro do país."

Daniel Oliveira enfatiza que "meses de encerramento têm custos muito maiores do que parece, sobretudo para os que vão ficando para trás".

O jornalista faz menção à carta aberta assinada por centenas de cidadãos - "pais, psicólogos, cientistas, professores, epidemiologistas, psiquiatras, pediatras e outros médicos" - que pedem a reabertura das escolas. O apelo é simples e repetido por Daniel Oliveira, um dos seus signatários: "dar prioridade à reabertura das escolas".

"Devemos começar por esta abertura, pelos mais novos e pelos mais frágeis. Pedir para se dar prioridade às escolas não é apelar à irresponsabilidade. A gestão da pandemia não se pode resumir à escolha entre fechar tudo ou abrir tudo." O cronista defende que, acima de tudo, "são necessárias medidas para conter a pandemia", mas garantindo "a ponderação de valores e de prejuízos causados".

Daniel Oliveira não acredita na existência de "um dilema entre saúde e educação", e comenta que o apelo que consta da carta aberta é "sensato, faseado e cauteloso". Pede-se, de acordo com o jornalista, que se recorra a "meios efetivos para que as escolas cumpram a orientação de garantir o regresso ao ensino realmente presencial de crianças e jovens beneficiários de ação social escolar, sinalizados pelas Comissões de Proteção de Crianças e Jovens, ou em risco de abandono escolar".

A carta aberta, divulgada esta terça-feira, propõe que se reabra já no início de março os jardins-de-infância e o pré-escolar, "que depois se passe, ainda em março, para o ensino básico, começando gradualmente pelo primeiro e segundo ciclos", e que tal aconteça "com o reforço das medidas de segurança". Entre as regras propostas, é possível elencar o "uso de máscara obrigatória, fornecida pela escola, rastreio periódico na população escolar, com vigilância dos níveis de contágio, proibição de reuniões fora da escola, aumento da oferta de transportes públicos durante o horário escolar, um desfasamento maior dos horários e a inclusão de professores e auxiliares nos grupos de vacinação prioritária".

"Manter as escolas fechadas como medida central da gestão da pandemia é o mais fácil para não ter de organizar, testar e gerir a crise." Daniel Oliveira acredita que esta medida poderá ser "duramente paga no futuro" e que terá um "preço altíssimo para os mais pobres e para os mais frágeis". Aliás, vinca, "já está a ser". Abrir as escolas de forma faseada e responsável "dá mais trabalho", mas a questão não é "se escolhemos a saúde ou a educação; é se escolhemos o planeamento ou a política do tudo ou nada", analisa.

O jornalista assinala que "não é em nome da saúde pública que estamos a pôr em perigo o futuro de milhares de crianças", mas em nome da "facilidade".

"Da primeira vez, em que fomos dos países europeus que mantiveram por mais tempo as crianças em casa, estávamos impreparados. Da segunda vez, é uma escolha."

* Texto redigido por Catarina Maldonado Vasconcelos

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