Desamigos

Eu tenho um perfil "meio" secreto no Facebook. Porquê? Porque quando o meu filho Fausto nasceu em 2012 alguém fez um perfil a gozar com ele chamado o Filho do Diabo 666. Esse perfil dava seguimento a um outro, construído por anónimos e que se chamava Fernando Loleiro. Consistia o dito cujo numa sequência de memes com frases minhas, retiradas do contexto, com o intuito simples e inocente de me aparvalhar e apequenar. A minha mulher, Sónia Tavares de seu nome e graça, era, obviamente, uma visada muito especial nesse perfil e também levava pela "medida certa".

Depois de muita polémica porque nos atrevemos a mandar para a PQP quem gozava connosco (a Sónia estava ao rubro de grávida), e a denunciar a página centenas de vezes (indo ao "exagero" de consultarmos com o nosso advogado e com um amigo na Polícia -que descobriu que os IPs eram da Universidade de Aveiro-, os perfis foram encerrados. Mas só porque os autores anónimos assim o desejaram. O Facebook nada fez para não atentar contra a "liberdade de expressão".

Vários "amigos" e "conhecidos" nossos seguiam essas páginas e deixaram lá o Like. O "Loleiro" teve quase cerca de 5000 seguidores, creio eu. Para além disso, pessoas chegadas ou afastadas, não entendiam o porquê da nossa "revolta" já que ambos éramos "figuras públicas" (eufemismo para caixote de lixo comunal) e no fim de contas, apesar das "ofensas "que não encomendámos" a ninguém, ainda ficámos conhecidos por sermos mal-educados e por não termos sentido de humor.

Eu não me posso opor a que uma pessoa faça uma piada, sei lá, sobre... a fome em África, mas não quer dizer que eu seja obrigado a rir dela, acho eu, mesmo correndo o risco de não ter a mente aberta para a oitava arte: o (mau) Humor. Curiosa, também, foi a expressão do nosso advogado que, sabendo que não há lei que proteja ou compense os injuriados, nos aconselhou a deixar aquilo "morrer" porque essas coisas são autofágicas. Tudo bem, mas quem se sentiu comido fui eu.

A partir daí, saí do Face e um pouco mais tarde do Insta, mas nem por isso deixei de sair do radar das pessoas que, coitadas, só querem fazer humor comigo, com a minha mulher ou com o meu filho. Ou, que maçada, dizer mal da minha banda, como bons clientes (ou não) que são, ou já foram, daqueles virtuosos que reclamam por tudo ou por nada, e que fariam bem melhor, mesmo que...nunca o tenham feito. Afinal, apenas a plena satisfação com o "serviço" que lhes "prestamos" interessa. Só o "amor e o dinheiro" que investiram em nós conta nesta divisão. O resto são coisas nossas, de pessoas mal-formadas e cinzentas que, apesar de tudo, eles fazem o especial favor de seguir. Obrigado?

Pois bem, anteontem, um amigo mandou-me uma mensagem para o meu telemóvel a perguntar "então acabaste com a nossa amizade virtual?". Eu respondi, por SMS, bem, tens o meu número, sabes onde moro, acho que isso basta para mantermos contacto. Afinal, não partilho nada nesse perfil, e se quiseres saber alguma coisa minha liga-me ou vem aqui ter a Alcobaça. Mesmo assim, ele pediu-me amizade outra vez e eu lá aceitei que é para ninguém ficar zangado. Ora isto coincidiu com uma "limpeza" que fizemos, por razões de gestão do Instagram, no canal oficial dos Moonspell.

Ingenuamente partilhámos as razões (que nos pareceram legítimas, mas... não "eram"), e foi o descalabro com vários insultos à mistura, vindos, principalmente de quem nunca tinha reagido, comentado ou posto LIKE nos vários posts sobre música, concertos e temas relacionados com a banda que constituem 99.9% da nossa comunicação com os "fãs". Mas, seguindo a cartilha das virtudes que orientam as redes sociais, do que é que "estávamos à espera?". Que parvos.

Claro que a mensagem que imperou é da que somos nós que estamos errados, que não percebemos a dinâmica das redes, que somos arrogantes, infantis, que temos o cú dorido (sabe-se lá do quê) entre outras apreciações sempre demonstrativas de inteligências e sensibilidades bem superiores à nossa. Essa conselheira sapiência arrastou-se a canais oficiais de notícias e para o nosso Facebook, ligado automaticamente ao Instagram desde a compra do mesmo por São Zuckerberg. Li muita desta coisada e pus-me a pensar o melhor que consigo, o que já não é muito, bem sei, mas mesmo assim fiz o esforço. Tirei várias conclusões que, de ora em diante, vou aplicar na óptica do utilizador das redes, observando o código de conduta que me/nos foi exposto pelos seus users mais notáveis e razoáveis. A ver:

- Que a Internet ou melhor que as redes sociais servem para 3 coisas: vender, enxovalhar e engatar. Como homem bem casado que sou e com a cabeça bem resolvida que tenho, vou-me cingir à primeira e tratar toda a gente como consumidores mesmo que faça música que, julgava eu, não só entretinha, mas alimentava a alma e fazia as pessoas "pensarem". Que engano.

- Que as pessoas se gostam de dar porrada nas redes, também adoram

(e como!) levar. Tipo Stallone no Rocky mas sem o sangue ou a glória. O nosso número de seguidores apesar das tentativas de hacking ou em criar um hashtag #unfollowmoonspell aumentou em vez de diminuir. Algo a considerar no futuro.

- Que existe um coro não trágico que aparece a cada capítulo, a dizer "não lhes deem tempo de antena, sejam superiores". Coisa nobre e corajosa (e nada sobranceira), que tem dado excelentes resultados já comprovados pela História. Ignorar é, segundo este coro, o melhor remédio. O que dá imenso jeito a quem quer propagandear coisas como "isto o que precisava era de dois Salazares" ou "as mulheres merecem a porrada que lhes dão."

- Que se quiserem mesmo ofender e magoar alguém não lhe chamem filhos da mãezinha ou os mandem para o trabalho. Basta desamigar. Tem mais efeito.

- Que se quero encontrar algo mais que bots humanos com "opinião", tenho de ir para o campo falar com os passarinhos ou investir mais em almoços e idas à praia com amigos e família, não transmitidos em directo através das redes. Na sequência deste pensamento também tenho que me deixar de Humanismos, de esquecer o Rosseau, o Kant, o S. Agostinho e a sua "fé/razão" na espécie. Acima de tudo, tenho de escolher outras causas que não a decência das pessoas. Há por aí muitas alternativas, é só procurar.

Finalmente e ao contrário do que era o meu hábito deixarei de moderar/apagar os comentários que me "ofendem" quando, por exemplo, partilho no meu perfil de "artista" os artiguitos que aqui escrevo na TSF. Vou começar a deixar lá essas nódoas porque, pelos vistos, não tenho direito à dignidade de as remover. Ou de me "portar mal" num mundo feito por pessoas que sabem melhor e fazem melhor que eu, mas que preferem, talvez, não sei, não o publicitar para não faltarem ao compromisso com a modéstia e razoabilidade que celebraram quando se inscreveram "na Internet".

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