Deutschland über Alles

Se a memória me não trai - e é um grande se, que nisto de traições a memória é pior do que as mulheres (destas Kingsley Amis disse melhor e menos machista: como os comunistas, they rewrite history as they go along) - o muro de Berlim foi deitado abaixo de quinta para sexta-feira.

No Domlngo dessa semana de Novembro de 1989, ao começo da noite e a milhares de quilómetros, eu saíra do carro que arrumara dentro do jardim do meu colega italiano em casa de quem íamos ter reunião informal dos embaixadores das Comunidades Europeias na Cidade do Cabo (uma meia dúzia) já não me lembro sobre quê quando fui interpelado pelo meu amigo Immo Stabreit, alto, de olhos azuis, óculos e careca a faiscarem à luz de um revérbero, que rompeu do escuro, me estendeu a mão e anunciou, triunfante:

"Greet the ambassador of the Fourth Reich!"

Immo, inteligente, instruído, sabedor de História, hostil a algumas premissas do chamado diálogo Leste-Oeste tal como entendido por Willy Brandt e, sobretudo, anos mais tarde por Hans-Dietrich Genscher, cuja táctica ao negociar com Moscovo tinha por premissa - que levei tempo a descobrir mas explicava tudo - reculer pour mieux reculer; Immo, dizia eu, percebera logo. Nem todos os seus compatriotas diplomatas foram tão lestos, talvez devido à prudência proverbial da profissão seja sobre que assunto for, ou talvez devido à inclinação Genscheriana da grande maioria deles (durante 18 anos, manifestações dessa inclinação eram maneira mais segura de trepar na carreira do que tentar elevar-se por força própria) mas talvez, por fim e sobretudo, devido ao inesperado da coisa.

Enquanto houvesse um russo sobrevivente da guerra, costumávamos dizer a Ocidente, Moscovo não consentiria reunificação alemã. Tal me repetira dois meses antes o meu colega inglês, acrescentando, com soberba pré-Brexit sobre a importância actual no mundo do ex-Império que o sol, logo em nascendo via primeiro, via-o também no meio do universo e em descendo deixava-o derradeiro (se Camões tivesse sido inglês e mais moderno teria dito à Rainha Vitória aquilo que, português do século XVI, dissera a D. Sebastião): «Nem nós consentiríamos, de resto». Neither would we.

Os franceses tocavam pelo mesmo diapasão. Nos bons tempos sem mudança à vista, De Gaulle comentara gostar tanto da Alemanha que preferia que houvesse duas. Quando a porca torceu o rabo, Mitterrand foi à pressa visitar Honecker a Berlim Leste, na esperança vã de manter viva a República Democrática, mas nem ele nem Thatcher conseguiram evitar o consentimento de Gorbachev e o encorajamento dos Estados Unidos de Bush pai.

Entretanto, clarividentes como Immo foram ganhando razão. A Alemanha de Bona tratara os pequenos com decência única entre as grandes potências. A Alemanha de Berlim, em nome de moral própria, submeteu alguns pequenos do Sul a tratos de polé. Passado meio século a querer ser europeia, a Alemanha torna outra vez a querer que a Europa seja alemã. Não vai dar.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de