Do passa culpas ao lava mãos

Há um consenso generalizado, quase uma unanimidade, sobre a dimensão do desastre a que o país pôde assistir em directo na noite de terça-feira, madrugada de quarta, para festejar um título leonino que fugia há 19 anos.

Antes do passa culpas e do lava mãos, como Pilatos, a responsabilidade teve direito a casamento antecipado com orgulhosos anúncios do governo, da câmara, da DGS e da polícia de que tudo estava a ser tratado a tempo e horas para que a festa decorresse com uma organização exemplar.

Assim que os convidados se excederam em número e falharam no comportamento era ver os noivos recusar manter-se juntos, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza,. A culpa, desta vez, não morreu solteira, morreu divorciada.

Um secretário de Estado da trupe do candidato à sucessão Pedro Nuno Santos, sem qualquer espécie de vergonha, que se afirmava do Desporto e apontava culpas à Administração Interna e à Câmara de Lisboa liderada por Fernando Medina, o outro candidato à sucessão. Um ministro que hibernava e deixava ao seu amigo António Costa as despesas da defesa do governo e atirava à PSP que, como se sabe, desde uma célebre reunião em Belém, deixou de ter tutela governativa e parece ser a menos culpada nesta história. Medina deixou-se ficar para o fim, convencido que as pessoas iam perceber que a Câmara não tinha nada a ver com aquilo, que só tinha emprestado o salão para a tão afamada reunião em que tudo ia ficar previsto metro a metro, minuto a minuto.

Vejam bem como o clima é de fim de festa. Numa semana em que dois comentadores da SIC, Marques Mendes, do PSD, e Ana Gomes, do PS, juraram a pés juntos que António Costa está de abalada para Bruxelas, tivemos de assistir a um indecoroso espectáculo em que o jogo do passa culpas e do lava mãos não permitiu que um só dos personagens desta história guardasse um pingo de dignidade, assumindo que podia ter feito um bocadinho mais para que tudo tivesse corrido muito melhor.

Claro que ter o Presidente da República a lembrar o óbvio sobre a responsabilidade que os adeptos também tiveram, desculpando o ministro que pode não ter tido uma intervenção - se não teve, devia ter tido -, pode parecer que atenua a culpa, mas tudo vai depender de haver ou não haver um surto de Covid na sequência da festa. Se houver e obrigar os lisboetas a recuar no desconfinamento é melhor que Marcelo tire o cavalinho da chuva, porque senão também sobra para ele.

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