Dor e depressão. Ninguém morre sozinho

Todos sabemos, numa redação, os cuidados com que devemos rodear o tema suicídio, evitando trazê-lo para o palco noticioso e procurando enquadramento, perspetivas de suporte e ângulos positivos quando o abordamos. Mas há momentos em que o tema, não apenas em abstrato mas em casos concretos que ganham impacto público, se impõe e se torna notícia. Foi assim, ontem, com um caso que começou com o apelo desesperado de uma mãe a pedir ajuda para procurar a filha desaparecida, de 16 anos.

Não sei nada sobre a jovem e sobre a família, a quem envio uma palavra de sentida solidariedade, e estou consciente dos riscos de abordar questões tão delicadas. Mas sempre que alguém desiste de viver vem-me invariavelmente à cabeça o nome do livro de Daniel Sampaio que traduz com uma profundidade incrível a complexidade deste problema: ninguém morre sozinho. E sinto ser obrigatório assumirmos, como sociedade, a responsabilidade coletiva de cuidarmos uns dos outros.

Vários especialistas têm alertado para a falta de respostas que temos na saúde mental. E são muitos os indicadores que apontam para o agravamento dos sinais de perigo nos adolescentes e jovens. Segundo os dados recentemente apresentados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos no retrato "Os jovens em Portugal, hoje: Quem são, que hábitos têm, o que pensam e o que sentem", 30% dos inquiridos com idades entre 15 e 34 anos assumem que já tomaram medicamentos para o sono e 26% para a ansiedade e depressão. 12% já autoinfligiram lesões corporais.

Em outubro, o JN destacou o facto de haver cada vez mais crianças e adolescentes a recorrerem aos serviços de urgência de pedopsiquiatria, com alterações agudas do comportamento, do humor e da ansiedade e com perturbações depressivas. O Centro Materno Infantil do Norte referia um aumento de 40% dos episódios, que também subiram no D. Estefânia, em Lisboa.

Ontem foi divulgado um inquérito realizado pela associação de defesa do consumidor que pretendeu avaliar o impacto da Covid-19 na educação das crianças e jovens. Numa primeira linha o objetivo foi ouvir os pais sobre os efeitos no desempenho escolar, mas foram também aferidos fatores de socialização. Quatro em cada dez encarregados de educação reconhecem o impacto da pandemia e do afastamento das aulas presenciais na saúde mental dos jovens e crianças. Um terço afirma que os filhos têm menos vontade de sair de casa do que antes da pandemia.

Consciente desta realidade, o Ministério da Educação pediu um estudo, a decorrer este mês, para avaliar o problema. Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e coordenadora do grupo de trabalho, explicou que o inquérito permitirá analisar os efeitos da Covid-19 por ano de escolaridade e nas diferentes regiões do país. A psicóloga garante que o vírus está a gerar medo do outro e relata "saturação, incerteza, ansiedade, tristeza, desânimo, falta de rotinas", não só nos alunos, mas também da parte dos docentes e dos pais.

Na mensagem de Natal que escreveu para o JN, o presidente da República elegeu a saúde mental como um dos problemas a exigir maior atenção no nosso país, de mãos dadas com a pobreza, e alertou para a necessidade de abrir "os nossos espíritos para a importância dessa área da saúde, cronicamente irmã pobre de tantas outras". É verdade que saúde mental ganhou espaço no debate público em 2021. E tem mesmo de ser uma prioridade em 2022. Sem sensacionalismos, mas também sem tabus. Olhando de frente o que falta fazer, que é tanto.

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