Dr. Passos, dê tempo à geringonça

Dê no que der, o melhor é a esquerda seguir até ao fim. Sob pena de andarmos mais duas legislaturas a reverter a reversão de uma política. Isso não, não é bom para ninguém.

Passos Coelho já percebeu isto: a geringonça anda. Melhor ou pior, "ganhou consistência", como reconheceu o líder do PSD na intervenção com que abriu o congresso. E, se anda, dificilmente cai tão cedo.

Bem sei que a tese vigente nestes dias é que, ao contrário do que acontece com Costa, Catarina, Jerónimo ou Cristas, a Passos conviria que este governo caísse depressa. Percebo a lógica, mas não concordo.

O sucesso ou insucesso de Passos, nesta terceira etapa como líder, volta a não estar na sua mão. Quem tem as cartas do jogo é António Costa e é sobretudo dele e da estratégia dele que dependerão os resultados das próximas legislativas. Mas se Passos Coelho está convencido, como está, que a estratégia de Costa não terá outro resultado que o falhanço, vai precisar para o demonstrar que o Governo fique mais de um ano, mais de dois, como primeiro-ministro.

Porque a questão, a verdadeira questão dos dias de hoje, é se a economia cresce ou não. É se cria empregos ou não. É se é possível distribuir rendimentos e manter o orçamento sob controlo - ou não. Se queremos tirar as dúvidas sobre isto, convém dar tempo a Costa para provar.

Nenhum modelo económico consegue dar resultados em pouco tempo. É preciso um ano para os primeiros sinais, dois para os consolidar. Quatro para sabermos com maior certeza, sem meias-tintas. Passos, sejamos justos, não teve esse tempo - a sua legislatura foi mais emergência do que modelo. Não nos convinha agora repetir o problema noutro género: ficarmos a meio da ponte sem saber o que tudo isto vale.

Há um mês, numa entrevista à SIC, Passos ironizou: se a fórmula de Costa provar, ele será o primeiro a votar no PS, BE ou PCP. Imagino que não será só ele. Mas se o líder do PSD está realmente convencido que tudo vai falhar, então que deixe a legislatura seguir até ao fim - e cair no chão, ou não. Sob pena de termos mais dez anos pela frente com o país partido, a discutir se o caminho é Keynes ou Hayek, se é o socialismo ou o liberalismo. E de andarmos mais duas legislaturas a reverter a reversão de uma política. Isso não, não é bom para ninguém.

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