Duas Europas

Comemoraram-se no dia 9 de maio o Dia da Europa, data da Declaração de Schuman em 1950, e na Rússia o Dia da Vitória sobre o regime nazi. Passados mais de 75 anos desses acontecimentos, e mais de três décadas depois da Queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética, estas celebrações foram marcadas pelo regresso da guerra e pelo espectro de um conflito indissolúvel no continente europeu. As cerimónias que tiveram lugar em Moscovo e em Estrasburgo são também o espelho de duas visões antagónicas da Europa.

No seu discurso na parada militar na Praça Vermelha, Vladimir Putin não fez nenhuma declaração bombástica, como vaticinado por alguns, preferindo referir-se insistentemente a Donbass como parte da pátria russa. Reiterou que já há algum tempo que havia indicações que um confronto com os "neonazis", apoiados e armados pelos países da NATO ("Estados Unidos e seus lacaios"), era inevitável para proteger a segurança da pátria e do povo russo. E terminou afirmando que o poder da Rússia reside no "grande poder invencível da nossa nação multiétnica unida."

Pouco depois, na cerimónia de encerramento da Conferência sobre o Futuro da Europa, em Estrasburgo, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, sublinhou que "o futuro da Europa está ligado ao futuro da Ucrânia". O que foi reiterado pela Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen: "Quero deixar uma mensagem muito especial aos nossos amigos e familiares ucranianos. O futuro da Europa é também o vosso futuro. O futuro da nossa democracia é também o futuro da vossa democracia." E o presidente francês, Emmanuel Macron, propôs a criação de uma "Comunidade Política Europeia". Uma nova organização aberta quer a membros da União Europeia, quer a países que atualmente não são membros, como a Ucrânia.

As palavras proferidas em Moscovo e em Estrasburgo apontam destinos diferentes para a Ucrânia. Mas, mais do que essas palavras, as duas cerimónias são também reveladoras de duas visões da Europa e do mundo. Duas visões inconciliáveis. De um lado, a narrativa revisionista de Vladimir Putin, exibindo o seu poder militar e agitando fantasmas do passado para justificar a injustificável invasão da Ucrânia. Do outro, uma visão do futuro da Europa e das democracias europeias construído em diálogo com os cidadãos e de uma Ucrânia a fazer parte desse futuro democrático.

Os últimos tempos ensinaram-nos que são poucas as certezas que podemos ter. Não sabemos quando e como terminará a guerra. Não sabemos com que fronteiras. Não sabemos o destino dos desígnios da Rússia de Vladimir Putin. Não sabemos quando e como a Ucrânia poderá fazer um caminho conjunto com as democracias europeias. Não sabemos muita coisa.

Mas, infelizmente, sabemos que de um lado temos um regime invasor, que viola o direito internacional e que despreza os valores das democracias liberais. Do outro, essas mesmas democracias liberais a defenderam o direito internacional, e os valores do humanismo e do Estado de direito democrático. São duas visões das fronteiras e dos valores da Europa incompatíveis. Também por isso, e apesar de todas as vicissitudes, não podemos ter a mínima hesitação em relação à Europa que preferimos. Também por isso, escolhemos e celebramos a Europa da paz, dos valores da dignidade humana e da democracia.

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