É legítimo roubarem-nos o Natal?

A questão tem estado há várias semanas em permanente sobressalto no discurso público e político: as restrições adotadas ao abrigo do estado de emergência visam não só uma contenção imediata da propagação da covid, como uma tentativa de alívio no final de dezembro, para salvar o Natal. Marcelo Rebelo de Sousa foi o primeiro a falar no tema e a alertar para a necessidade de repensar as festas, logo a 9 de outubro, quando tal cenário ainda parecia distante e começava apenas a desenhar-se a força desta segunda vaga. Desde então multiplicam-se as dúvidas, com António Costa a evitar, na declaração em que anunciou as medidas para o período de emergência em vigor, especular ou antecipar o que quer que seja.

O Centro Europeu de Controlo de Doenças alerta para os riscos de levantar restrições no período natalício. Se os países que em outubro e novembro tomaram novas medidas para controlar a pandemia as levantassem a 21 de dezembro, os internamentos hospitalares aumentariam logo na primeira semana de janeiro.

Alguns países da Europa já definiram ou estão a discutir medidas. Há as óbvias, como o cancelamento das habituais feiras e eventos de Natal, mas outras vão mais longe. Espanha quer limitar as reuniões familiares a um máximo de seis pessoas e impor um recolher noturno entre a uma e as seis da manhã, no Natal e no Ano Novo. Alemanha está a analisar a proposta para que as reuniões sejam no máximo de dez pessoas, estando também em cima da mesa a possibilidade de uma quarentena voluntário no período que antecede as festas.

Apesar das projeções, é impossível perceber em que ponto vamos estar a meio de dezembro, até porque a evolução da curva de novos casos depende muito do ajustamento das populações às medidas que vão sendo determinadas. Muito do que se possa dizer hoje estará desatualizado em pouco tempo, mas qualquer pessoa com consciência social sabe que muitas famílias não terão qualquer razão para celebrar, seja por razões de saúde ou porque perderam o emprego. Vivemos uma situação nova e de profunda gravidade, por isso numa perspetiva social e económica o Natal está irremediavelmente perdido. Resta uma perspetiva muito pessoal e familiar da celebração.

Não há dúvidas de que vamos estar em estado de emergência na altura de Natal e que serão inevitáveis e necessárias restrições que evitem o descontrolo da pandemia. Ainda que António Costa tenha prometido, já há meses, que não iria separar famílias como aconteceu na Páscoa, nesta altura ninguém conseguirá amarrar politicamente o primeiro-ministro a essa promessa, dada a incerteza e volatilidade dos tempos que vivemos. Há, ainda assim, uma fronteira que deverá ser bem ponderada, no momento de tomar decisões. É indispensável assumir medidas que impeçam aglomerados e grupos numerosos. Já será mais discutível impedir deslocações entre concelhos ou querer limitar excessivamente contactos entre pais e filhos, ou avós e netos.

Graça Freitas pediu esta semana aos portugueses que façam escolhas e assumam a responsabilidade de travar o vírus. E essa escolha combina dois vetores que andam sempre interligados, liberdade e responsabilidade. "Está nas nossas mãos decidir com quem nos encontramos presencialmente", afirmou a diretora-geral. Está, e essa é uma questão a não esquecer. Estamos há quase um ano a viver sob o peso deste vírus, passámos a Páscoa completamente isolados, há idosos que não estiveram com os filhos e netos no Verão, há um peso avassalador da solidão que começa a ter efeitos cada vez mais evidentes. Sabendo os riscos, cada família deve ter possibilidade de assumir aqueles que valem a pena. Não se trata apenas de cansaço pandémico ou de haver crescente incumprimento por parte da população e risco de incompreensão perante medidas duras. Trata-se de avaliar o impacto emocional e mental de medidas excessivas. E de respeitar que há, nestas vivências, escolhas muito íntimas das famílias.

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