E o próximo ano letivo?

Agora que nos aproximamos do fim do ano letivo, é uma boa oportunidade para fazer um balanço da resposta de urgência e emergência que a escola pública deu em contexto de pandemia, e para fazer uma reflexão sobre o próximo ano escolar.

Foi evidente, e isso tem de ser realçado e louvado, a enorme, veloz e dedicada capacidade de resposta da escola pública às famílias e alunos, garantindo que o ano letivo não ficaria comprometido. Montar uma escola remota de um dia para o outro foi uma notável demonstração de capacidade que tem de ser realçada e, reafirmo, louvada.

Mas ficaram à mostra as principais debilidades de um modelo remoto de ensino, que o transformam numa opção de último recurso, uma resposta de emergência.

Na verdade, o ensino remoto é insuficiente do ponto de vista pedagógico, como aliás é natural que o seja. Se o não fosse, há muito que teria sido adotado. A aprendizagem depende da interação pessoal, da dialética, do debate e confronto, e também da convivência. Tudo isso, que é essencial, é insuficiente num modelo remoto, comprometendo sobretudo o desempenho dos alunos com mais dificuldades e que precisam de um acompanhamento mais presencial.

Mas não é só isso. O ensino remoto depende da capacidade de alunos e famílias terem à sua disposição o equipamento necessário, saberem utilizá-lo e saberem resolver as questões técnicas que inevitavelmente o mesmo suscita, mas também terem à sua disposição uma estrutura habitacional e familiar que favoreça o estudo, que promova o ambiente necessário para que este ocorra sem distúrbios.

Como sabemos, isso não é a realidade de milhares de famílias, o que transforma o ensino remoto (valioso enquanto solução de último recurso) num instrumento de perpetuação de desigualdades. Quanto mais tempo essa solução de recurso for aplicada, mais fundo fica o fosso que separa crianças com recursos e famílias estruturadas de crianças em situação de vulnerabilidade económica ou social.

É que a escola tem como essencial papel o de ser um elevador social, um mecanismo de mobilidade social. É na escola que os mais vulneráveis podem encontrar as armas necessárias para poderem cumprir com os seus projetos de vida e de felicidade. Se privarmos a escola desse papel, estaremos a comprometer o futuro de todos os alunos que contam com ela para poder subir na vida.

Ora, se assim é, temos de saber o que vai passar-se no próximo ano lesivo, porque se o ensino remoto serviu como solução de urgência, as suas insuficiências não o recomendam como nova normalidade.

Em todos estes meses, o que está a ser feito nas escolas, nos recursos técnicos e humanos a ela afetos, para que, tal como sucede com as restantes áreas da nossa vida, ela se adapte aos novos tempos e possa de novo contar com o ensino presencial (ou parcial, intercalando com remoto)? Vamos ter mais salas, mais professores, mais recursos, para poder ter aulas com distanciamento social? Qual é o plano de reabertura do ano escolar num contexto como o que temos agora? E que medidas de contingência estão a ser tomadas?

Esta discussão é essencial, não tanto como apontamento à retoma da economia, mas como elemento estrutural da função pedagógica e de mobilidade social da escola. E é uma discussão para que todos devíamos estar a ser convocados.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de