É preciso salvar a Livraria Barata?

Estamos todos com medo de que a saída de casa, a ida à escola, ao trabalho, às compras, ao convívio com colegas de trabalho, com amigos, com familiares, com estranhos, possam ser um perigo.

Receamos infetarmo-nos. Receamos infetar os outros. Receamos pelos nossos filhos, pelos nossos pais. Receamos uma segunda vaga da COVID-19 e achamos que a primeira ainda não passou.

No dia em que começa uma nova fase de desconfinamento, este medo é sensato, é de cidadania responsável mas, também, é de egoísmo natural.

Este medo, compreensível, não nos pode transformar em cidadãos imobilizados.

É preciso tomar medidas de proteção sim, mas, nesta fase mais fraca de contágio não podemos ficar paralisados, sozinhos, sem viver; nem podemos, por outro lado, enlouquecer, inebriados com o fluído do regresso à vida comum, a desrespeitar as normas de proteção recomendadas pelas autoridades.

Na história do Princípe Próspero, se bem me lembro, Edgar Alan Poe conta como um monarca tenta vencer a Morte Vermelha, uma praga que estava a liquidar o seu povo.

Ele isolou-se no seu gigantesco castelo, levou para lá mil amigos e arranjou entretenimento: músicos, atores, bailarinos.

Para impedir definitivamente a entrada da Morte Vermelha, fechou todas as portas de entrada no seu castelo e deitou fora as chaves. Ninguém podia entrar, ninguém podia sair. Era o confinamento total.

Ao fim de seis meses o Príncipe Próspero, enfadado, indiferente à devastação mortal provocada pela praga que, fora do seu castelo, continuava a dizimar o seu povo, realizou um baile de máscaras para os amigos.

O baile decorreu mais ou menos tranquilamente, mas ao soarem, estrepitosas, num enorme relógio de um dos salões, as doze badaladas da meia-noite, a música da orquestra foi obrigada a parar e fez-se um repentino silêncio.

Olhando, nessa altura, uns para os outros, os convidados perceberam que um estranho conseguira entrar no castelo e estava entre eles. Esse individuo mascarou-se, provocatoriamente, de Morte Vermelha.

Irritado com a desfaçatez do invasor, o Príncipe Próspero puxou da espada e atacou o mascarado mas, ao ver o rosto do estranho, percebeu que não estava a olhar para uma máscara: encontrara a cara fatal da própria Morte Vermelha.

A espada caiu-lhe das mãos, o corpo tombou inerte no chão, um último grito marcou o momento da morte do rei que acreditava ser capaz de vencer a morte, se lhe fechasse todas as portas.

E, um a um, todos os mil convidados desse castelo confinado foram morrendo, infetados pela peste da Morte Vermelha.

Este velho conto ensinou-me imenso: sobre o lado negro do comportamento humano confrontado com uma epidemia mortal, sobre a necessidade de proteção coletiva e universal, sobre a violência que um privilegiado pode causar aos que não nascem em berço de ouro, sobre a mortalidade das falhas de solidariedade entre humanos, sobre como o medo de fantasmas nos mata a bondade, sobre a inevitabilidade da morte e, até, sobre coisas bem práticas, como perceber as vantagens mas também os limites do isolamento social para fazer face a um vírus - afinal, temos de ter consciência que, apesar de todos os esforços, há sempre uma porta entreaberta por onde a morte pode acabar por entrar.

Todas as orientações práticas feitas nos últimos 90 dias pela Direção Geral de Saúde valem menos do que a reflexão que a leitura de um simples conto do século XIX nos obriga a fazer - é que a literatura não é a vida, mas ajuda-nos a compreender melhor a vida.

Neste primeiro dia de uma nova fase do, esperamos, caminho de regresso à liberdade, não tenciono ir ao restaurante, ao barbeiro ou comprar roupas. Nem praia, nem campo, nem passeio, nem corrida, nem ar livre!

Li que, em Lisboa, a Livraria Barata está a lutar pela sobrevivência - se este mês não correr bem, a loja fecha.

A Livraria Barata é uma das melhores livrarias da cidade e faz parte da história pessoal de muitos lisboetas.

A primeira coisa que vou fazer, graças à fase de desconfinamento que hoje começa, é agradecer às livrarias que fizeram de mim uma pessoa mais sensata, mais informada, mais estruturada, mais sensível, mais rica e mais capaz do que as características que a natureza me deu podiam perspetivar.

Ler livros não fez de mim melhor pessoa, mas fez de mim uma pessoa capaz de compreender melhor as outras pessoas. Ler livros deu-me mais do que a realidade e ajudou-me a perceber a realidade.

Ler contos na juventude, como o que pobremente descrevi de Egdar Alan Poe, ajudou-me, por exemplo, a ter mais prudência, mais coragem e mais serenidade para enfrentar, na meia-idade, a crise social aberta pela COVID-19.

A primeira coisa que vou fazer, portanto, graças à fase de desconfinamento que hoje começa, é comprar livros na Barata porque, de certeza, depois da pandemia, continuarei a precisar dela... E acho que muitos lisboetas também: ajudem-me, então, a tentar salvar a Livraria Barata e, agora que são um pouco mais livres, circulem protegidos e dêem também lá um saltinho, ok?

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