E se a geringonça for um arco-íris?

1. Em oito eleições europeias, por quatro vezes o partido do Governo venceu. É um facto que o voto em europeias tende a ser mais livre e com menos cálculos estratégicos sobre as consequências de cada escolha individual. Em todo o caso, em metade das eleições essa liberdade não foi suficiente para penalizar excessivamente quem governava. Talvez mais significativo, quando o partido de Governo venceu as europeias, nas legislativas seguintes cresceu sempre - foi assim com Cavaco Silva em 1987 (no mesmo dia teve 37,4% em europeias e 50,2% em legislativas), de novo em 1989 e 1991 (cresceu de 32,75% para 50,6%) e com Guterres em 1999 (de 43% para 44,1%).

Vinte anos decorridos, os 33,4% do PS nestas europeias representam um pequeno crescimento face às últimas eleições (um ponto acima das legislativas e dois acima das europeias de 2014), mas abrem boas perspetivas para outubro. Com mais de dez pontos de vantagem face a um PSD sem alternativa, o resultado de António Costa é, por isso, melhor pelo que sugere do que pelo feito de ontem.

2. Há um equívoco muito generalizado: quando um partido de direita cai, seria possível a outro, no mesmo espaço, capitalizar as perdas. A mesma asserção seria válida à esquerda. Não tende a ser verdade. Quer o bloco de direita (PSD+CDS), quer o bloco de esquerda (PS+BE+PCP) tendem a crescer em conjunto e a cair em conjunto. Nestas eleições, o CDS não capitalizou nada as perdas do PSD (não terá ajudado ter-se apresentado com um candidato com reminiscências da direita ultramontana) e Cristas falhou em toda a linha aquilo a que se propôs em Lamego há um ano. O CDS está longe de ser alternativa e ainda mais distante de liderar a oposição. Se há bloco que continua em perda é - cá como um pouco por toda a Europa - o bloco central. PS e PSD tiveram, juntos, 55% dos votos. Nas europeias de há vinte anos, tinham 74%.

3. O PAN está longe de ser uma moda passageira. Há muito tempo que era claro que, na sociedade portuguesa, existia espaço para a afirmação de um partido verde, sem grande ancoragem nas clivagens ideológicas tradicionais, acompanhando a onda europeia de crescimento de partidos ecologistas. Afirmando-se para além da esquerda e da direita, o PAN rompeu a barreira da invisibilidade mediática e tem, de novo, um grande resultado. Mais relevante, a votação no PAN está longe de ser concentrada num par de distritos. Pelo contrário, nas zonas do litoral, mais populosas, o PAN alcança sempre votações significativas (6,8% em Lisboa, 5,6% no Porto, 6,6% em Setúbal e 6,2% em Faro). Com um resultado semelhante em legislativas, pode ambicionar um grupo parlamentar entre quatro/cinco deputados.

4. As declarações dos líderes do PS, BE e PCP e, acima de tudo, os resultados das europeias não deixam grandes dúvidas. Há uma ampla maioria de esquerda, o PS não tem possibilidade de alcançar uma maioria absoluta e os eleitores estão contentes com a geringonça. Sintomaticamente, na noite eleitoral, nem Costa, nem Catarina Martins, nem sequer Jerónimo (que averbou uma derrota, em parte explicável pela viabilização do Governo PS) colocaram de lado novos entendimentos depois de outubro. Contudo, com alterações na correlação de forças entre partidos à esquerda e com a emergência do PAN, as opções para António Costa serão maiores. Razão tinham todos aqueles que diziam que a geringonça era irrepetível. Pode bem ser esse o sinal dado pelos eleitores. Em lugar de uma nova geringonça, uma coligação arco-íris, mais ampla, com verdes a dar novas tonalidades ao Governo que sairá do próximo Parlamento.

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