E se falássemos da censura em Espanha?

Passou despercebida por cá, talvez porque o governo espanhol seja social-comunista e não de direita, a polémica estratégia do Estado espanhol de colocar as forças de segurança a monitorizar as redes sociais em busca de mentiras, de notícias falsas.

O que tem isto de polémico, se a ideia é combater a mentira, as falsidades?

Desde logo, a afirmação clara, literal, do general José Manuel Santiago, na apresentação dessa estratégia, dizendo que essa monitorização tinha também em vista minimizar o clima de insatisfação relativamente à atuação das entidades governamentais.

A afirmação foi tão literal que era impossível que a polémica não estalasse, acusando-se o governo de censura. E a polémica foi tão forte que o Ministro do Interior veio rapidamente dizer que tudo não passava de um lapso, que era tudo uma confusão de palavras.

Sucede que, esta segunda-feira, a rádio SER divulgou um e-mail da Guardia Civil, enviado para as suas diferentes unidades, pedindo-lhes expressamente que identificassem notícias falsas suscetíveis de causar stress social e insatisfação com a actuação das instituições governamentais.

Afinal não era lapso. Era mesmo verdade que essas instruções tinham sido dadas. Coube à Ministra da Educação, esta terça-feira, tentar contextualizar melhor a coisa. E eis senão quando, na tentativa de explicar o que não tem explicação, a Ministra se lembra de dizer que não se podem aceitar mensagens negativas, falsas, que coloquem em causa as instituições. Por instituições, leia-se, o Governo. Não serenou ninguém, como é evidente.

Temos, por isso, que o Governo social-comunista de Espanha deu ordens às forças de segurança para andarem pelas redes sociais a ver das mentiras contra o Governo, supostamente só em matéria de combate à pandemia.

Qual é o mal, perguntam os que não querem ser complacentes com a mentira e só veem problemas nestas coisas quando é o Sr. Orbán a mandar? Acaso gostamos de mentiras e boatos num momento como este, de combate a uma pandemia, em que mentiras podem matar porque dão instruções falsas?

O mal disto, como devia ser evidente, é que não cabe ao Estado nem ao Governo definir o que é ou não é uma mentira, o que é que é ou não é falso, e muito menos lhe cabe ser juiz em causa própria, eliminando das redes tudo aquilo que sobre si se escreve e que lhe desagrade porque nisso vê uma ameaça à sua credibilidade e à necessária estabilidade.

Essa coisa de mentira e verdade só em teoria é simples. Mesmo em ciência, cujo método passa precisamente por duvidar, testar, duvidar outra vez e testar outra vez. Veja-se o caso da utilização de máscaras: é verdade ou mentira que as devemos usar? Quem o escrevesse há dias, devia ser censurado por isso, por não ser essa a posição das autoridades de saúde?

Se é assim em ciência, pior ainda em política: o que é que isso de mentiras que causam insatisfação relativamente ao governo? E quem define isso? O Estado, o próprio do Governo, as forças de segurança?

Sabemos bem o que isto é: é censura. Censura instituída no país vizinho. E de nada valem as desculpas do amor à verdade e da proteção contra a mentira. Não há ditador nenhum que não fundamente a sua política de censura precisamente no mesmo argumento.

As democracias liberais têm uma forma de lidar com a mentira. Terá as suas imperfeições, mas é a única aceitável: o debate, o contraditório, a sindicância, as explicações. De tudo isso se quer furtar Pedro Sánchez, tal como Orbán.

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