E se isto durar muito tempo?

É a pergunta mais difícil, reconhece Daniel Oliveira, "a que ninguém pode ainda responder mas que muito poucos querem fazer". Até onde estamos dispostos a ir?, questiona o jornalista, diante de uma pandemia sem fim à vista.

O cronista exorta os portugueses a refletirem sobre alguns efeitos do prolongamento "daquilo a que chamamos - como quem quer ser engenheiro das almas - de novo normal". O exercício de imaginação remete para o cenário mais pessimista, o que estende a duração da doença para lá das linhas vermelhas de anos a fio.

"Imaginem a evolução das outras doenças no seio de uma sociedade mais sedentária, isolada e com medo. E como responderá o SNS, obsessivamente focado num único vírus e cada vez mais fragilizado pela falta de recursos que a crise económica provocará?"

E depois "imaginem o crescimento exponencial de problemas mentais, em pessoas saudáveis ou já com patologias, em muitos casos com desfechos trágicos", a "qualidade de vida dos mais velhos, ainda mais isolados do mundo e das suas famílias", os efeitos emocionais, sociais e políticos da extensão do "clima de medo, alimentado durante os próximos anos pelas autoridades e pela comunicação social". Sem esquecer os efeitos de uma "crise económica que se pode tornar interminável e destrutiva de todo o nosso modo de vida", os efeitos políticos da continuação de restrições às liberdades cívicas, da sua "aceitação acrítica" e da "arbitrariedade como modo normal do funcionamento do Estado".

"Imaginem como a vigilância, que a tecnologia já facilitava, pode ser a forma normal de o poder político e económico lidar com os cidadãos", prossegue Daniel Oliveira. Para o jornalista, é importante ponderar os efeitos que terá "o teletrabalho como forma definitiva de funcionamento das empresas, com os trabalhadores sem rede de solidariedade entre eles, ainda mais indefesos perante os abusos do seu patrão" e "o que fará o isolamento social às pessoas mais pobres e vulneráveis" e às vítimas de violência doméstica, alcoólicos e toxicodependentes - "todos abandonados".

Num cenário mais disfórico, "milhões de adolescentes e crianças" também cresceriam expostos a "níveis de socialização muitíssimo baixos". Esta conjetura foi lançada na semana passada por António Guterres. O secretário-geral das Nações Unidas"disse que, num cenário otimista em que os países desenvolvidos coordenassem as suas respostas, talvez fosse possível conter o vírus e impedir uma segunda onda", o que "salvaria os países mais pobres e garantiria um regresso à normalidade daqui a dois ou três anos", lembra Daniel Oliveira.

Mas a hipótese mais provável levantada por Guterres, "olhando para a descoordenação internacional, até dentro da União Europeia", é o de que o vírus "chegará em força ao hemisfério Sul" e registar-se-á uma "importante segunda onda". Assim, as "consequências económicas e para a saúde pública poderão durar entre cinco e sete anos". Apesar de reconhecer que esta possibilidade é cada vez mais condizente com a evolução da pandemia a nível mundial e dos esforços internacionais que a acompanham, o cronista pede, no espaço de Opinião da TSF, que não se incorra em precipitações: "Não sabemos se haverá vacina ou se a infeção garante uma forte imunidade. Não sabemos quanto tempo isto irá durar, pode durar muitos anos."

Sem respostas para a duração dos surtos, Daniel Oliveira foca-se no que importa também discutir, num horizonte de possibilidades e pesadas consequências. "Coloco a pergunta brutal às pessoas da minha geração: temos o direito de destruir assim a vida dos nossos filhos? E temos o direito de deixar os pobres ainda mais pobres, os excluídos ainda mais excluídos, os doentes ainda mais doentes, em nome da nossa vida?"

As perguntas que formula "são dolorosas e podem levar a conclusões cruéis", admite. Mas... "temos mesmo de começar a fazê-las; somos mortais e temos de saber viver com isso". Muitas pessoas morreram para "conquistarmos o que temos hoje: a democracia, a liberdade e a prosperidade"...

Daniel Oliveira lança por isso um exercício de reflexão: "Estamos dispostos a deitar tudo para o lixo para sobrevivermos? Isso seria generosidade ou egoísmo? Não sei responder a nada disto. Apenas me assusta ver tanta gente demasiado concentrada no seu próprio medo para fazer a pergunta mais difícil: E se isto durar muito tempo?"

* Texto redigido por Catarina Maldonado Vasconcelos

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