E se parássemos de pensar só em covid?

No último meio ano assistimos a uma covidização da vida e do discurso mediático, dada a forma como a pandemia tomou conta do nosso quotidiano, da sociedade e sobretudo do sistema de Saúde. Os alertas em relação ao centramento da assistência no novo coronavírus sucedem-se e vale a pena recuperar alguns dos mais recentes, porque vêm cada vez mais de dentro do próprio Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Importa desde logo refletir sobre a mortalidade excessiva verificada no último semestre, que não tem suscitado o debate que seria de esperar face à dimensão dos números. Em comparação com a média dos últimos dez anos para o mesmo período, registaram-se mais 5888 mortes entre março e agosto. Mesmo retirando a mortalidade causada pela covid, restam cerca de quatro mil mortes a mais do que o esperado, apenas parcialmente explicadas pela onda de calor que assolou o país em julho.

Diversos especialistas têm alertado para o impacto dos atrasos em consultas e do receio que muitos portugueses continuam a demonstrar em recorrer aos centros de saúde e hospitais. Como ainda ontem aqui na TSF recordava o presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, todos os dias morrem cerca de uma centena de portugueses com doenças cardiovasculares. E se todos os dias os noticiários repetissem à exaustão esses números, como acontece com os balanços de covid, estaríamos mais atentos aos cuidados preventivos a ter e à deteção precoce?

Ainda um outro alerta, feito em conjunto pelos bastonários das ordens dos Médicos, Enfermeiros e Farmacêuticos. A propósito dos 41 anos do SNS, afirmam que este está transformado em "máquina de guerra" contra a covid. É necessário reequilibrar recursos e assegurar que não há danos colaterais em todos os serviços não covid.

Não se trata de ignorar ou minimizar os riscos do novo coronavírus, porque já todos percebemos os efeitos e taxa de mortalidade elevada sobretudo na faixa acima dos 70 anos, mas de o relacionar com outros riscos que enfrentamos. De nada serve travarmos uma luta gigantesca contra a doença, se entretanto estivermos a falhar em tantas outras patologias e a agravar riscos noutras vertentes, nomeadamente de saúde mental - uma leitura que levará longos anos a ser feita.

É neste contexto que devemos enquadrar o regresso às aulas, não esquecendo que há riscos, mas que os danos de não voltar presencialmente ou de colocar receios excessivos sobre a escola podem ser mais gravosos do que qualquer vírus. Como pais, diretores, professores, todos gostávamos de ouvir garantias de que o risco é nulo. Só que essa garantia não existe, nem na escola nem em qualquer outro segmento da sociedade. Não existe para a covid como não existe para tantas outras ameaças sobre as quais já nem pensamos cada vez que saímos à rua.

No geral as intervenções de diretores e pais têm-se pautado pela serenidade e é importante que ela se mantenha. Sem ser gravoso para a saúde dos mais novos, este coronavírus terá um impacto impossível de prever para o futuro. São inúmeras as restrições que os afetam, na socialização e contacto físico, nas atividades desportivas e extracurriculares, na autonomia que está a ser limitada pelo facto de terem todos os movimentos controlados.

Tanto como estarem preocupadas com a covid, é bom que as famílias ponderem os diversos fatores em jogo, incluindo a saúde mental, e tentem não agigantar o medo. Colocar mais peso em cima de tantas dificuldades que esta pandemia causou é o que as crianças e jovens menos precisam.

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