Escravatura moderna e as «filhas descartáveis» do século XXI

Hoje, dia 15 de Outubro, tinha pensado comentar o que poderíamos esperar do segundo debate entre os candidatos à Presidência dos EUA. Como bem sabemos, o debate não se irá realizar e essa ausência reflecte bem os tempos complexos em que vivemos. Para quem acompanha a política internacional, hoje é mesmo um dia estranho. Por isso, decidi olhar para um tema que não debatemos o suficiente e que deveria estar na linha da frente das nossas preocupações: a escravatura moderna.

A palavra escravatura remete-nos quase de forma instintiva para o passado. No entanto, essa é a realidade de cerca de 40 milhões de seres humanos nos dias de hoje. A escravatura moderna é um flagelo global e pode ser melhor explicada através de uma palavra: «produto». O «produto» é um ser humano que é vendido, coagido, forçado, explorado de muitas formas desumanas, que vão desde o trabalho infantil à escravatura sexual. A descrição da escravatura moderna é dura, dolorosa e, segundo o relatório Stacked Odds, sobretudo feminina: «Embora a escravatura moderna afecte todos, não é possível dissociá-la da desigualdade de género».

Os números que são avançados são avassaladores e deixaram-me quase sem palavras: «Uma em cada 130 mulheres no mundo é vítima da escravatura moderna» e «71%, ou seja, quase ¾ dos escravos no mundo, são mulheres e meninas. Mais ainda, na escravatura sexual o número chega aos 99%, nos casamentos forçados aos 84% e aos 58% na escravatura laboral».

Estes «números» são a expressão mais trágica de um «desequilíbrio de poder». Esse desequilíbrio traduz-se em muitas dimensões, entre as quais o menor acesso à saúde e à educação no «feminino». No fundo, «a vida de um rapaz é considerada mais valiosa do que a de uma menina». Um dos testemunhos mais eloquentes é o de Sarah, uma mulher queniana com 30 anos, forçada a casar-se aos 13, e que nos diz: «Eu só queria ser mandada para a escola como as outras raparigas da minha idade».

O relatório viaja por vários continentes e dá voz a muitas sobreviventes da escravatura moderna. Esta viagem pelo mundo é importante, pois demonstra com casos concretos a realidade desumana destas mulheres. Tal como a da indiana Priya, agora com 23 anos, vítima de um casamento forçado aos 10 anos. Qual é o seu objectivo? «Eu quero mudar as vidas das minhas crianças. Quero que elas tenham instrução e não quero que elas sejam forçadas ao casamento infantil».

Dar voz às vítimas é um passo importante. Mas não chega. É preciso não esquecer os seus nomes e a sua dor e lutar para que expressões como «filhas descartáveis» deixem de ser uma realidade.

*A autora não segue o acordo ortográfico de 1990

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de