Espanha: o fim do bipartidarismo não conseguiu ainda dar estabilidade política

Adolfo Mesquita Nunes defende que o fim do bipartidarismo em Espanha, que foi muito aplaudido, não trouxe ainda "condições de governabilidade". No espaço de opinião que ocupa semanalmente na TSF, o centrista explicou a sua visão sobre o panorama político espanhol, em três eixos.

Em primeiro lugar, o comentador destacou "a fragmentação partidária" que, na sua visão, "não tem gerado estabilidade política". O centrista foi mais longe e disse mesmo que "o fim do bipartidarismo - que foi muito saudado - e a mudança do panorama político em Espanha, com o surgimento de novos partidos, traduziu-se numa cena política bastante mais interessante, mas com o sangue espanhol tornou-se também ingovernável."

Por outro lado, Adolfo Mesquita Nunes lembrou que "o panorama político, e não só o espanhol, é muito efémero", o que, na sua opinião, ficou provado com a reviravolta nos resultados das sondagens.

"Olhando para as sondagens, aquilo que há poucos meses parecia certo, determinante - que era o quase fim do Partido Popular Espanhol, que estava em queda - está completamente ao contrário. É o Ciudadanos que ameaça ter o seu pior resultado de sempre, com uma hecatombe eleitoral, coisa que há cinco ou seis meses era completamente impensável. (...) O Podemos também estava numa rota ascendente imparável, depois achou-se que ia ter uma rota descendente imparável. A verdade é que se tem mantido, apesar da cisão com o Errejón consegue manter a parte do seu eleitorado."

Adolfo Mesquita Nunes sublinhou que "há uma enorme volatilidade no sistema partidário e, hoje, um partido que nasce e cresce, no dia a seguir, pode ter um resultado dececionante".

Num terceiro plano, o centrista disse acreditar que "o panorama político espanhol - muito por causa da questão da Catalunha, mas também por ação do Presidente do Governo - é muito polarizado e muito ideológico", o que "tem dado espaço ao crescimento de um partido como o Vox".

"Quando no último ano e meio em Espanha, os assuntos que mais se fala é das transladações dos restos mortais de Franco - que é uma decisão de Pedro Sánchez para mostrar que ideologicamente está muito longe da ditadura franquista - claro que fez acordar muito do eleitorado franquista muito conservador espanhol que está, neste momento, a fazer crescer o Vox. Com a questão de franco e também com a questão da Catalunha, a resposta do Vox para tudo é 'mais Espanha, mais Espanha, mais Espanha e menos imigração'. Portanto, há uma posição de força que beneficia partidos políticos que aparecem com uma posição mais firme, pelo menos por parte do eleitorado", avançou.

Por fim, o comentador considerou que "não é de esperar que as próximas eleições possam trazer um resultado muito diferente das últimas, no sentido de ser o vencedor o Partido Socialista, mas de ele não ter maioria para governar. E um dos partidos à direita vai ter que, se quiser acabar com o impasse, disponibilizar-se para viabilizar ou para fazer parte do Governo."

Mas porque é que nas eleições anteriores a direita não disse "sim" a Sánchez? Adolfo Mesquita Nunes acredita que isso se deve ao facto de Pedro Sánchez nunca ter dispensado os partidos independentistas "que lhe tem sido essencial para se manter no poder"

"Esse apoio dos partidos nacionalistas fez com que quer o Ciudadanos quer o Partido Popular tivessem dito várias vezes a palavra "nunca" a um acordo com o Partido Socialista e isso fê-los ficar reféns desse nunca. Mesmo com todas as pressões dos parceiros sociais, das empresas, do patronato, mesmo as pressões sociais em Espanha para que houvesse um Governo e que, de alguma maneira, moderasse Sánchez - que o deixasse e o libertasse dos independentistas - a verdade é que os dois partidos estavam amarrados a um "nunca" que tinham dito várias vezes na campanha eleitoral", rematou.

As eleições gerais em Espanha estão marcadas para este domingo. É a quarta vez que os espanhóis vão a votos nos últimos quatro anos.

Texto: Sara Beatriz Monteiro

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