Euroescolha

Portugal tem uma oportunidade de ouro para ultrapassar a Rússia e chegar ao sexto lugar no ranking da UEFA. Mas isto vai muito para lá de colocar duas equipas diretamente na Champions em 2021/22. O futebol nacional precisa marcar uma posição que o defenda minimamente da reforma da Liga dos Campeões em 2024.

Mais uma semana europeia para o futebol português e mais uma oportunidade para as equipas nacionais continuarem a ganhar terreno às russas no ranking da UEFA. A primeira jornada da fase de grupos (somando a Liga dos Campeões à Liga Europa), mesmo com três derrotas, foi positiva para Portugal e só se espera que a tendência se mantenha.

Os triunfos de FC Porto e Braga na ronda inaugural foram suficientes para totalizar quatro pontos na contabilidade europeia, contra apenas três da Rússia, com a vantagem adicional - mas, porventura, determinante - de estarem todas as equipas portuguesas em prova, contra apenas quatro do nosso adversário direto, que começou a caminhada com seis. Isto é crucial na média a obter, porque os pontos portugueses são divididos por cinco e os russos por seis.

Confirmando-se o que se prevê como plausível, Portugal voltará a colocar duas equipas com entrada direta na Champions (e uma terceira nas eliminatórias) a partir de 2021/22, além de mais três na Liga Europa num regime idêntico ao de hoje. Convém não esquecer que só contam as últimas cinco épocas, pois as anteriores são excluídas da contabilidade. E, neste contexto, Portugal vai com 42.849, contra 43.216 da Rússia. Simplesmente, nesta temporada, a tendência de inversão é notória : 3.700 para "nós" e 2.333 para "eles".

A questão é que o alcance da recuperação do sexto lugar na tabela europeia vai muito para lá da mudança em si. Numa altura em que prossegue a discussão sobre o novo formato da Liga dos Campeões a partir de 2024, são visíveis os perigos que espreitam a representatividade do futebol português no quadro da UEFA.

Deixada em banho-maria a criação de uma Superliga - embora não se deva pensar ingenuamente que a ECA (Associação Europeia de Clubes), liderada pelo todo-poderoso Andrea Agnelli, presidente da Juventus, vai desistir facilmente - é conveniente atentar que a UEFA não excluiu uma reforma que possa contemplar parcialmente os interesses dos "tubarões" , todos eles integrantes das conhecidas Big 5 (Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França).

Aleksander Ceferin garante que, enquanto ele for presidente da UEFA, jamais haverá uma Champions "fechada". Acreditemos que sim, no sentido literal do termo, mas isto não impede que haja alterações que possibilitem, por exemplo, a existência de 32 clubes distribuídos por quatro grupos de oito equipas cada e nos quais as seis primeiras transitassem para a época seguinte, algo que encaixaria nas pretensões da ECA. Só que continuaria a ser péssimo.

Aliás, o passado recente demonstrou que a UEFA não tem grande problema em "ajustar" as coisas sempre que o seu controlo sobre a competição possa ser ameaçado de alguma forma. Os pagamentos pela entrada na fase de grupos em função do ranking dos clubes na Liga dos Campeões são um dado muito interessante.

Claro que aquela não é a única sugestão que existe, pois já surgiu a chamada "Fórmula Copenhaga", que dá prioridade à entrada de campeões nacionais de cada país em detrimento de clubes sem história europeia, ou o "Sistema Suíço", que defende um campeonato envolvendo 32 equipas, mas com uma metodologia que tem tanto de complexa como de bizarra. Duas ideias que poucos acreditam que alguma vez tenham pernas para andar.

Seja como for, Portugal tem de cuidar de si. Uma Liga dos Campeões semifechada interessa aos muito ricos, tal como a novel Europa Conference League pode ser um espaço apetecível para a terceira divisão europeia. O problema é o que acontece à classe média, onde Portugal se inclui, ameaçada com o "degredo" para a Liga Europa.

Mas isto nem é o pior. A criação de uma Superliga provocaria, pura e simplesmente, o esvaziamento das Ligas nacionais, com Portugal a ser um dos principais atingidos. Sendo que os novos moldes da Champions, a acontecerem, também não deixam a Liga portuguesa numa situação tranquila.

E nem vale a pena ter ilusões no plano individual, porque mesmo que equipas portuguesas entrem na hipotética futura Champions, nada lhes garante que se mantenham muito tempo por lá, porque o mecanismo de funcionamento tende a varrer quem não tem recursos financeiros ao nível dos colossos.

Portanto, antes do mais, a prioridade é recuperar o sexto lugar, retirando a Rússia daquela posição. Depois, olhar seriamente para o modo como as coisas funcionam por cá.

Guerras de clubes à parte, a centralização de direitos televisivos não pode ser apenas uma simpática declaração de intenções (só que há uma legítima perceção de que os três grandes de modo algum vão alinhar nisso por iniciativa própria) e a calendarização da prova, por exemplo, não pode compadecer-se com uma interrupção de um mês no campeonato, seguida de três jornadas consecutivas jogadas numa única semana.

Enfim, entre muitas coisas mais, mas isso é para outra conversa.

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