Fique em casa. E nós ficamos?

Quando hoje se sentarem para aprovar as medidas do novo confinamento que tenta travar uma terceira vaga avassaladora, os ministros terão na decisão sobre as escolas um dos principais pontos de discussão. Manter ou não as aulas presenciais em todos os níveis de ensino divide especialistas, políticos e agentes do setor, tal como na Europa se vão vendo diferentes modelos nesta matéria. A grande questão não é se as escolas fecham. É, fechando, perceber quando abrem. O exemplo de Tavira é bem ilustrativo do problema que se cria ao encerrar escolas. Depois de uma semana com ensino à distância, quando as aulas foram retomadas, na última segunda-feira, cerca de metade dos pais não levaram os filhos, porque se criou um problema de confiança que até então não existia.

A Confederação de Pais e as associações de Diretores defendem o regime presencial e é assumida pelo Governo a preferência por manter os alunos na escola. Uma preferência assente em dados concretos que permitem perceber os efeitos negativos da falta de presença. Estão consolidados indicadores do impacto do ensino à distância nas aprendizagens e o encerramento, no último ano letivo, foi um acelerador de desigualdades sociais. Por outro lado, não há evidência de que as escolas sejam um foco de contágio e o início da 2ª e da 3ª vaga coincidiu, pelo contrário, com períodos de férias.

Apesar da consistência dos dados sobre a segurança do espaço escolar, opiniões de alguns especialistas e posições políticas como a do PSD, que defende aulas à distância para o 3º ciclo e Secundário, foram criando uma pressão crescente para fechar. E como não basta a vontade do Governo, sendo necessário dar segurança à comunidade educativa e aos pais, instrumentos como os testes rápidos (em espera desde o início do ano) e medidas como a prometida colocação de mais assistentes operacionais contribuiriam para reforçar a prevenção e contenção de surtos.

Tal como nas escolas a vontade do Governo não chega para assegurar a tranquilidade, também quanto ao confinamento não basta decretar um novo "fique em casa" para que os efeitos sejam rápidos. As medidas que realmente funcionam são as de autocontenção e vários indicadores demonstram que os portugueses não estão a aderir como seria de esperar às medidas preventivas. Os comportamentos mudaram gradualmente ao longo do tempo e também a perceção de risco é, hoje, muito diferente da que tínhamos em março.

Segundo um estudo ontem divulgado pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Universidade Nova de Lisboa, os portugueses utilizaram menos a máscara nas semanas que coincidiram com o Natal e o Ano Novo. O número de pessoas que indica utilizar sempre a máscara quando sai de casa e convive com pessoas fora do agregado familiar diminuiu 10,4% nas últimas duas quinzenas. E 60% das pessoas que estiveram num grupo com 10 ou mais pessoas revelaram não ter tido sempre a máscara colocada no rosto.

Idênticos sinais de descompressão são dados pelos estudos de mobilidade. Segundo a consultora PSE, especializada em ciência de dados, desde o Natal a mobilidade atingiu níveis pré-pandemia e até superiores nos dias úteis, incluindo nos últimos dois dias, já com os números da mortalidade a disparar. Apesar dos relatórios diários alarmantes, também os fins de semana mantêm movimentos em linha com os anteriores.

O pior que poderá acontecer é termos um mês de confinamento, com efeitos desastrosos na economia e no bem-estar das famílias, com impacto na saúde mental e nos indicadores sociais, sem que a eficácia do ponto de vista sanitário seja a esperada. O Governo tem de ser eficiente nas medidas (já para não dizer que deveria ter sido muito mais rápido) e tem de as comunicar bem. Mas nós temos de fazer a nossa parte

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