Fora de horas

Desta vez vim para Lisboa no Miguel Torga e, como na última ida e volta viera no Alexandre O"Neill e me fora embora no Aquilino Ribeiro, achei que a TAP tinha arranjo com a Biblioteca Nacional - já há várias décadas saída do Chiado e posta perto do aeroporto - para celebrar a literatura portuguesa mas o regresso a Bruxelas fez-me perceber que o arranjo, largo e fundo, alcançava muito mais do que as belas letras. Quem nos devolveu à cidade onde vivemos agora e onde vive o Rei dos belgas (não há Rei da Bélgica porque, na realidade, não há Bélgica: há valões e flamengos às turras uns com os outros e uma pitada de alemães, literalmente encostados à mãe-pátria para o que der e vier) foi o Eusébio, santa pessoa com muito melhor feitio que algum dos três escribas lembrados acima e, no seu ofício ou arte, pelo menos tão bom quanto qualquer deles na sua. (Conheci-os quase todos; escapou-me o otorrino de Coimbra).

Fui a Lisboa tratar da saúde, procurar casa e lançar um livro (dantes lançavam-se dardos, agora parece que livros também). Da saúde nada digo, como aprendi em Inglaterra; da casa certamente alguma coisa direi quando por fim lá estiver instalado, graças à diligência de senhoras dedicadas à busca dela (uma das quais é fã de George Steiner - cereja miraculosa no bolo imobiliário). Do lançamento do livro falo agora, que foi momento feliz, barbacã de amigas e amigos a protegerem-me do resto do mundo. O Grémio Literário presta-se a ocasiões assim com bela sala biblioteca um pouco cansada, cheia de gravuras, em primeiro andar onde se chega por escada suave, desenhada quando ainda não havia elevadores mas já havia dinheiro e disposição para ajudar coxos. Devia ser ensinada nas escolas de arquitectura. O rito da cerimónia é conhecido, numa mesa sentam-se autor, editor, Duarte Bárbara, neste caso também prefaciador, Ricardo Soares de Oliveira, e apresentador do livro, Bruno Vieira Amaral, que eu conhecera porque há dois anos me visitara em Oitavos para falarmos de José Cardoso Pires de quem ia escrever biografia. Deixara-me pequeno livro seu. O conjunto do homem e do livro impressionaram-me tão bem que quando mais de um ano depois decidi publicar selecção feita pelo Ricardo destes Bloco-Notas, decidi também que convidaria o Bruno para a apresentar. Acertei em cheio - o homem é criador, erudito, sensato e dotado de bússola moral. É bom a gente ouvir dizer bem de nós e melhor ainda quando quem fala é perspicaz e bem formado.

Hora e meia sob a presença tutelar da Vera que fora o meu melhor editor. Para o cronista o editor é a bengala - às vezes o cão - do cego. O melhor que eu tivera antes fora o Victor Cunha Rego que conhecia bem Kotter e sabia o que queria dele ("Tens de falar mais dos cães"). A Vera era diferente: dizia de vez em quando que gostara, raramente que gostara muito, deu-me a ler grandes livros e assim foi criando baias de bom senso e bom gosto para a minha prosa. E nunca falhei um Bloco até à semana passada.

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