George Floyd

Há sempre quem encontre um pretexto, uma desculpa, para se afastar da comoção ou indignação que uma morte como a de George Floyd gerou. Não no sentido de negar o horror, a violência, a inaceitabilidade, mas antes no sentido de não querer participar num sentimento coletivo de indignação ou comoção, em manifestações de solidariedade e pesar, recusando ver nessa morte um símbolo.

Seja porque houve outras mortes igualmente inaceitáveis que não mereceram a mesma comoção, seja porque noutras latitudes se praticam genocídios que nos deixam indiferentes, seja porque a morte foi apropriada por uns quantos politicamente motivados, seja porque a ela se seguiram protestos violentos e criminosos e inaceitáveis como que fazendo esquecer os milhões de protestos silenciosos, pacíficos, ordeiros, há sempre um pretexto.

Não é que essas matérias não sejam dignas de reflexão. O que é que leva uma morte a tornar-se símbolo e outra em tudo semelhante a ser ignorada? O que leva à apropriação politicamente motivada e abusiva de uma morte?

Sucede que essa reflexão em nada impede a comoção e a indignação perante uma morte inaceitável, se as sentirmos. E a História está feita disso, de símbolos, de acontecimentos ou eventos ou figuras que, na sua história, tão igual a tantas outras na coragem ou na exemplaridade, ganham uma dimensão que as ultrapassa, porque de alguma forma, por algum motivo, se transformam em símbolo e abarcam todas as outras.

É possível manifestar tributo ou comoção a umas e outras, sem que tenhamos de nos pôr de lado. Mais: é possível prestar o nosso tributo da forma que entendermos, com a motivação que entendermos, sem que isso nos faça partilhar dos propósitos da pessoa do lado que igualmente se manifesta. Mais ainda: é possível contribuir para que essa comoção se universalize e seja tão transversal que desautorize qualquer apropriação. E ainda mais: é possível manifestar comoção e indignação sem tomar qualquer posição política.

E é possível, claro que é, achar inaceitável, inapropriado, que o Chefe de Estado de uma nação que vê esta morte, e se comove com ela, prefira reagir dividindo em vez de unir, acicatando em vez de pacificar, aproveitar violência para suscitar violência, cair exatamente no que supostamente diz querer combater.

Nada em Trump é dito ou feito para unir uma Nação, nem com a consciência de que se preside a um país, não a um grupo eleitoral. Tudo nele é divisório, segmentário, uns contra outros, polarizando, desqualificando quem pensa diferente, preferindo cavar fossos entre pessoas em vez de lançar pontes, confundindo-se com o Estado.

Quando, perante uma morte destas, o Presidente dos Estados Unidos, país farol da liberdade, é incapaz de fazer um discurso como os de Reagan a favor de uma nação de livres e iguais, não podem os cultores da liberdade sentir outra coisa que não profundo receio pelo nosso mais radical valor político.

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