Geringonça: o PS quer sol na eira e chuva no nabal

A "Opinião" desta terça-feira, por Daniel Oliveira.

O que é necessário para que se concretize uma coligação de esquerda para os próximos quatro anos? Foi esta uma das perguntas a que Daniel Oliveira deu resposta na Manhã TSF, já no rescaldo das Legislativas.

O cronista não tem dúvidas: "É preciso, antes de mais, que o próprio António Costa seja um pouco mais claro."

Mas as soluções do atual, e recém-eleito, primeiro-ministro são três, como explica o jornalista. "Ou forma um Governo de coligação, que tem um programa, tem um conteúdo, tem um acordo a ele implícito, ou faz um acordo parlamentar, com uma maioria parlamentar estável - foi o caso da geringonça dos últimos quatro anos -, ou tem um Governo minoritário, onde procura, a cada medida e a cada orçamento, apoios."

Daniel Oliveira assinala ainda que "um acordo parlamentar escrito, com conteúdo programático, foi proposto pelo Bloco de Esquerda, o único até agora a falar disso, e que, aliás, apresentou condições suas para que esse acordo se fizesse, à semelhança do que aconteceu há quatro anos, e, ao contrário do que diz António Costa, não aconteceu apenas porque o Presidente da República o exigiu".

Para o jornalista, é natural e necessário que BE e PCP persigam respostas sobre os termos em que se traçará um possível acordo, já que "os partidos que apoiam o Governo naturalmente querem saber em que condições apoiam esse Governo".

A última opção é a pior, salienta Daniel Oliveira. "A solução medida a medida não é um acordo parlamentar, não é uma geringonça. É uma alternativa de Governo minoritário, que tanto pode ser feita com o PSD, como com o Bloco, com o PCP..."

Quanto às movimentações de cada uma das forças políticas que compunham a última solução governativa, o cronista aponta que o PCP "ficou fragilizado, com os resultados que teve, em relação ao Bloco de Esquerda, o que o coloca numa posição mais difícil".

O Partido Comunista "sabe que teve transferências de voto para o Partido Socialista, porque muitos eleitores comunistas gostaram desta situação, devido à composição social do eleitorado do PCP - com muitos reformados, funcionários públicos e as pessoas que, em geral, sentiram mais rapidamente a reposição de rendimentos", vinca.

"O PCP cortou o cordão sanitário que tinha com o Partido Socialista. Quando o fez, a transferência de votos tornou-se mais simples."

Numa situação complicada internamente, um acordo de incidência parlamentar, como aconteceu há quatro anos, poderá ser mais difícil, de acordo com Daniel Oliveira.

Por outro lado, o PS mantém uma postura dominadora em relação aos seus parceiros de geringonça, o que leva Daniel Oliveira a afirmar mesmo que "o Partido Socialista parece que só quer sol na eira e chuva no nabal".

"O PS quer um compromisso informal que permita um apoio parlamentar, talvez através de uma abstenção - aquilo a que eu chamei uma gerinsonsa, porque é um apoio sem apoio, mas que permita a viabilização do Governo -, contudo não quer nenhum compromisso escrito."

O jornalista reflete sobre esta vontade do Partido Socialista de não desejar ver escritas as condições para um acordo. "Percebe-se o que aconteceria... Se o Partido Socialista fizesse alguma coisa que não agradasse à esquerda, a esquerda estaria presa a este acordo e não poderia fazer cair o Governo sem pagar o preço de fazer cair o Governo, mas não teria qualquer poder sobre a governação."

Na noite eleitoral, António Costa falou em reeditar a geringonça, lembra o cronista, que contrapõe: "Não há reedição da geringonça sem acordos escritos. A geringonça são acordos escritos, é por isso que lhe chamamos geringonça e não um acordo minoritário."

Para Daniel Oliveira, "António Costa aproveitou o momento mais complicado do PCP para amarrar publicamente a esquerda a um Governo do Partido Socialista sem lhe dar nada".

Mas, "não havendo um acordo escrito, não há programa, não há compromisso, não há conteúdo, não há geringonça", sublinha.

Por partes: "o PCP já disse o que queria: sem acordo e lei a lei" e o Bloco de Esquerda "já disse o que queria: um acordo". Por isso, "falta o primeiro-ministro dizer o que quer". "Sem acordo, não há maioria estável. Com acordo escrito, aí, sim, podemos falar de uma reedição da geringonça."

Quanto às forças emergentes na Assembleia da República, possíveis para um acordo à esquerda, Daniel Oliveira frisa que são "totalmente irrelevantes", e justifica: "O PAN já disse que não quer um acordo escrito, logo fará o que tem vindo a fazer nos últimos quatro anos, e nunca lhe ocorreu falar do PAN como parte da geringonça."

E mesmo com a terceira parcela, o Livre, o PS não conseguiria a soma tão desejada da maioria absoluta. "Isto, na política, é mesmo assim. O que conta é o peso político que se tem."

"O peso político é fazer maioria. E há dois partidos que o fazem, juntamente com o PS: o BE e o PCP", conclui.

* Texto redigido por Catarina Maldonado Vasconcelos

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