Hitler? Connais pas

Lembrei-me hoje desta resposta célebre, dada por meninos de escola franceses em inquérito oficial, salvo erro no fim dos anos 80, que deixou muitas mães, muitos pais, muitos políticos e muitos mestres-escola do Hexágono alarmados, porque amiga portuguesa, ela própria nascida depois do 25 de Abril e com filhos pequenos, me disse que hoje, para muita gente mais nova do que ela, Estado Novo, PIDEs, Salazar, não significam nada - isto para lá de vários mal-entendidos correntes.

Começarei pelos mal-entendidos e limitar-me-ei ao maior de todos eles. Contra o que muita gente julga, Salazar não foi a causa dos nossos males - foi uma das suas consequências. Eu não percebera isso sempre, nem enquanto o homem presidia a regime político abominável - valendo-lhe depois do fim da guerra (de 1939-1945, entendam os mais novos) com as derrotas de Hitler e de Mussolini, a sobrevivência vencedora do bom Tio José Estaline, que lhe salvou a vida política, levou à criação da OTAN (de que Portugal foi membro fundador) e à invenção do que é hoje a União Europeia - nem enquanto o seu sucessor, Marcelo Caetano, insistiu em prosseguir nas guerras de África e em não democratizar o país. Nem sequer o próprio 25 de Abril me fez entender logo as coisas.

Mas com o 25 de Abril, no dizer lapidar do meu chorado amigo Horácio Menano, «o português foi destapado» e, passado pouco tempo ao ar livre, começou-se a dar melhor por ele do que havia sido o caso antes. Seguiram-se os solavancos da nossa democracia de que todos nos recordamos - bancarrotas, FMI, austeridade, a Alemanha a aplicar sem anestesia o seu Bem ao que entende ser o nosso Mal. Entretanto, muito cedo, com clarividência típica, Mário Soares pediu a nossa adesão à União Europeia, não para que ficássemos mais ricos ou aprendêssemos a fazer melhor as contas mas para desimaginar qualquer coronel de direita ou de esquerda de querer deitar a mão a Portugal para nos governar com pulso firme.

E se, no fim da guerra, o Tio José valeu à ditadura de Salazar, nos dias que vão correndo, Al Qaeda tem dado jeito à democracia por ter tornado inseguro todo o Norte de África, fazendo assim de Portugal lugar estimado para reforma e férias.

Mas não se devem albergar muitas ilusões. Isto a que se chama Portugal - ou, diriam pedantes, a sociedade portuguesa - dos milionários que já vai havendo a muitos pobres cada vez mais pobres, assenta numa mistura de injustiças, favores e aldrabices difícil de desemaranhar, mesmo com a melhor das intenções e não creio que tal intenção exista hoje, dos cumes do estado ao seio das famílias mais humildes. Na altura devida Lutero e Calvino não andaram por cá e hoje em dia há a mania de querer fazer tudo a bem. Mas o mal está dentro de todos nós e há de voltar a vir ao de cima.

Talvez eu esteja a ser injusto com a juventude. Acho, como Bernard Shaw, que é uma pena que ela se desperdice nos jovens - e talvez tal visão seja demasiado cínica. Mas não me palpita nada de bom.

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