Inquietação da boa

Quando ando de carro com os meus filhos, cada viagem converte-se em programa de discos pedidos. Cada um escolhe as suas músicas e quando as minhas são desconhecidas explico a história e o contexto que os ajuda a perceber o seu alcance. O que não impede que, perante alguns temas de Sérgio Godinho ou José Mário Branco, as reações sejam inflexíveis. "Oh meu deus!", exclamou dramaticamente o mais novo, há poucas semanas, "isto é mesmo música do século passado".

Nasci depois do 25 de Abril, mas a ouvir as histórias quentes do que tinha acabado de acontecer. Os discos de Fausto, José Mário Branco ou Zeca Afonso ainda não cheiravam a mofo e tinham dentro tantos significados que era impossível não ler atentamente cada poema e suas entrelinhas. Esses significados vão-se perdendo e a música de intervenção é hoje, para os miúdos, cada vez mais um legado teórico que dificilmente vivenciam com proximidade. O que não tem de nos levar a ser nostálgicos ou a desejar uma cristalização no passado, já que vivemos um tempo político e social diferente, mas deve suscitar reflexão. Com novos tempos vêm também novos desafios.

Perante um regime fascista é fácil perceber onde está o inimigo e mobilizar a resistência. Hoje tendemos a considerar que temos uma democracia suficientemente sólida para não haver ameaças e acabamos por as minimizar. Basta olhar para a Europa e para o avanço da extrema-direita. Ou para a forma epidérmica como reagimos às diferenças e como não conseguimos definir uma política global de acolhimento de refugiados. São tantas as dúvidas que dividem a sociedade portuguesa - e europeia - em valores centrais como a igualdade, justiça social, integração e respeito pela plena liberdade do outro. Muitas vezes em exemplos subtis, como o que o JN hoje traz em manchete , do chamado Bairro Social da Integração, em Leiria, em que um muro de quase dois metros de altura tapa a paisagem e delimita a comunidade cigana. Temos muros, demasiados.

Rigor, coerência, preocupação com o bem-estar comum: são tantas as lições que podemos guardar a partir das músicas e da vida de José Mário Branco. Todas elas atuais, numa democracia em permanente fragilidade e construção. Em que também o nosso papel cívico carece de reinvenção e em que temos a obrigação de perceber que todos temos uma missão na discussão de uma sociedade mais justa. O maior legado do cantor e autor é a permanente inquietação com o que falta cumprir dos valores de Abril. Uma inquietação que não se deixa vencer pela frustração perante a imperfeição e a falha mas que acredita, apesar dos desvios, que aquilo que está por conseguir, "essa coisa é que é linda".

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