A arte de remendar

No rescaldo do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, muito se tem falado sobre o teor dos discursos proferidos, das mensagens, do seu poder de mobilização e gerador de ação construtiva (ou não).

Não escaparam os temas que têm assolado o País nestes últimos anos como a corrupção, a inclusão social, a coesão territorial e, irremediavelmente, as falhas e erros que cometemos na construção da democracia com todos e para todos, mas que, por outro lado, não podem resumir um povo. Tais erros e falhas, que existiram e nos assombram, não podem vaticinar um futuro como sendo algo impossível de ser superado ou vencido. Há que nos perdoarmos e aos outros e avançar com passos firmes e concretos rumo a diferença. Sem desvios, coloridos e atalhos. Agir pensando e deixarmo-nos de tanto pensar que desistimos pelo caminho.

A este propósito, há uma imagem e filosofia que povoa o meu imaginário há muitos anos.

Trata-se da arte japonesa de consertar cerâmicas quebradas com ouro e laca. A esta arte chama-se Kintsukuroi, "reparo com ouro" ou Kintsugi, "emenda com ouro".

Um pote de cerâmica pode ter uma beleza única. Moldado a partir do barro, da argila, ele é maleável pelas mãos de seu criador até que seja submetido a altas temperaturas, quando então sua própria estrutura molecular se altera permanentemente para que se transforme em uma cerâmica. Como cerâmica, o material se torna cristalino, rígido, e está entre os mais duráveis que conhecemos. Dentre as criações humanas mais antigas já registadas em escavações arqueológicas estão os potes de cerâmica que nossos ancestrais moldaram há dezenas de milhares de anos - antes mesmo de construírem suas primeiras cidades.

Mas se a cerâmica é duradoura, o mesmo não se pode dizer necessariamente do pote.

Em uma era de plástico, poucos japoneses mais jovens usam laca de madeira - e muito menos de ouro - na vida diária. Mas entre os japoneses mais velhos e ricos - para quem o calor e o brilho de uma simples tigela de sopa podem evocar valores culturais profundos - a mística continua viva.

O simbolismo dessa arte remete a beleza do amadurecimento e das superações da vida. Assim são as nossas cicatrizes reais e emocionais quando trabalhadas.

Como uma filosofia, kintsugi pode ter semelhanças com a aceitação do imperfeito ou defeituoso. A estética japonesa valoriza as marcas de desgaste pelo uso de um objeto. Isso pode ser visto como uma razão para manter um objeto mesmo depois de ter quebrado e como uma justificação do próprio kintsugi, destacando as rachaduras e reparos como simplesmente um evento na vida do objeto, em vez de permitir que o seu serviço termine no momento de seu dano ou rutura. Destacar ou enfatizar imperfeições, visualizando remendos e costuras como um adicional ou uma área para celebrar ou se concentrar em vez de destacar a ausência ou partes faltantes. Artistas modernos experimentam com a técnica antiga como um meio de analisar a ideia da perda, da síntese e melhoria através da destruição e reparação ou renascimento.

Ao invés de diminuir a beleza da peça, um novo senso de sua vitalidade e resiliência elevaram sua apreciação a novas alturas. O pote tornou-se mais belo por ter sido quebrado.

Houve quem ponderasse que a verdadeira vida do pote começou no momento em que caiu e se quebrou.

Também assim são as pessoas, os povos e as nações

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