A Opinião

A Caixa de Pandora

"A Opinião" de Nádia Piazza, na Manhã TSF.

São tempos estranhos estes em que vivemos. Tudo parecer ser assunto de polícia. Em que atos de má gestão de recursos públicos passaram a ser assunto de polícia e nunca de política. Tudo muito verdade. Mas sabe a tão pouco em democracia.

Quando se trata da "coisa pública", antes de ser um caso de polícia, estamos, sim, perante um caso político. Se a entidade é pública, os dinheiros são dos contribuintes; se a governação e fiscalização cabe a uma entidade pública, é, sim, um caso para ser escrutinado no Parlamento, na praça pública, pelos media, até à exaustão, se for o caso, para que as amarras políticas e agendas partidárias cedam por fim.

Não se assiste a mudanças substanciais na prevenção e combate à corrupção em Portugal. Muitas promessas e pouca ação. Nem a mais elementar aprovação do crime de enriquecimento ilícito conseguem. E porque será?

O dinheiro público injetado na Caixa Geral de Depósitos, bem como no Novo Banco e no BCP, foi um verdadeiro crime de lesa-pátria. Foi preciso sair um relatório preliminar pela "porta do cavalo", pela mão da comentadora Joana Amaral Dias, para que a máquina tremesse e, tremendo, surgissem os primeiros "pais da criança", os autores do pedido de inspeção, para que Centeno assumisse estancar a sangria da Caixa, auditorias fossem entregues ao Parlamento e comissões de inquérito fossem avante, por fim.

O que revolta é que a fatia do leão paga pelos contribuintes foi para as entidades financeiras geridas de forma fraudulenta. Agora a fatura chegou, meus caros.

Não há dinheiro para o mais básico. É a rutura dos serviços de Saúde, da Educação, da Segurança Pública, do colapso das infraestruturas públicas, só para dar alguns exemplos.

Confesso que sempre gostei dos nomes dos casos mediáticos que vão para além de meros números de inquérito. Operação Marquês, Monte Branco, Face Oculta são os que me ocorrem em Portugal.

Mas a polícia brasileira nisso é imbatível. Também são tantos os casos... Operação Lava Jato, Golpes Masters, Cash Delivery, Pão Nosso, Carne Fraca, Zona Cinzenta, Conexão Venezuela, Operação Falsa Morada - essa era ótima para os deputados da AR e para uns quantos cá de Pedrógão Grande -, e, outra bem apanhada, Operação Créditos Podres.

A pensar num nome para o caso de polícia no caso da sangria da CGD e as eternas suspeitas de favorecimento aos "primos e primas", amigos do avental e comensais dos seletos jantares das quartas - já que de política a ver vamos se temos deputados e deputadas -, surgiu-me o óbvio, admito: Operação Caixa de Pandora.

Na mitologia grega, a "caixa" era, na verdade, um grande jarro dado a Pandora, a primeira mulher na Terra, que continha todos os males do mundo. Pandora foi criada com um único defeito: a curiosidade.

Pandora abre o jarro, tal como Eva come a maçã, deixando escapar todos os males do mundo, menos a esperança. A esperança era vista como um mal da humanidade, pois trazia uma ideia superficial acerca do futuro.

Em ano de eleições costumam dar-nos de comer muita esperança, isso é verdade.

E não é que calhou justamente a uma mulher abrir a Caixa, justiça lhe seja feita.

Que se abra a Caixa e que dela se revelem todos os males. Que se revelem os seus grandes devedores e os seus ex-gestores.

Mas...para que reste esperança no banco público, o caso tem que se tornar um caso de política, doa a quem doer, seja em que ano for.

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