37º Congresso do PSD

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Congresso PSD

A sensação de azia na sala

Se há coisa com que os grandes partidos lidam mal, é com a ausência do poder.

Deixar o poder é como deixar o tabaco. Os primeiros tempos são insuportáveis. Fica-se irritadiço. Sem paciência. O corpo implora pela nicotina. A boca suplica pelo cigarro. Os dedos sentem-se lassos, sem um filtro para apertar.

Mascar uma pastilha, ou ter sempre uma caneta na mão, não compensa a ausência do cigarro, mas ajuda a suportar a privação. Nos grandes partidos é a mesma coisa. O pequeno poder não compensa a ausência do grande poder, mas ajuda a tornar tudo muito mais suportável. Não impede a irritação, a ressaca e a impaciência, mas ajuda a suportar um dia de cada vez.

Rui Rio sabe isso muito bem. E, não por acaso, no primeiro discurso que fez ao congresso, deixou o aviso: "Os partidos existem para servir o país, não existem para dar corpo às suas pequenas táticas, nem aos interesses dos seus dirigentes". A sala gelou. Os aplausos tímidos - muito tímidos - não disfarçaram o incómodo de tantos que, sentindo-se órfãos da anterior liderança, temem agora pelo que lhes possa vir a acontecer daqui para a frente.

Nos últimos três anos, o PSD foi, progressivamente, perdendo poder. Primeiro perdeu as Europeias. Depois ganhou as legislativas, mas António Costa roubou-lhe o poder. E, em 2017, as autárquicas foram uma espécie de machadada final nos sociais democratas, que chegaram a ser o maior partido autárquico português.

Nos últimos três anos, houve muitos militantes que ficaram sem emprego. Pior que isso, houve muitos militantes que foram, progressivamente, perdendo os seus pequenos poderes. As guerras intestinas nas concelhias e nas distritais um pouco por todo o país e os jogos de bastidores que degradam a imagem dos políticos e dos partidos foram a consequência mais visível num partido que estava em queda acelerada. A saída de cena de Passos Coelho não matou esperança dos que ainda acreditaram que, com Pedro Santana Lopes, o poder não lhes escaparia completamente entre os dedos das mãos.

Mas Santana Lopes não ganhou. E Rui Rio, que durante a campanha interna já tinha avisado que ia pegar na vassoura, agora voltou a fazê-lo no congresso. Essa é uma das grandes incógnitas em torno da nova liderança de Rui Rio. Até que ponto conseguirá o novo presidente do PSD recuperar um partido que está fragmentado, sem rumo, sem ideias, sem liderança?

A primeira condição para ser bem-sucedido é conseguir afirmar-se como uma verdadeira alternativa a António Costa. E provar uma tese antiga, de que Rio é mais popular no país do que dentro do seu próprio partido. Depois tem de saber rodear-se das pessoas certas. E por certas, entenda-se competentes. Por fim, tem de conseguir fazer a tal limpeza no partido, sem se comportar como um elefante numa loja de porcelana.

Se conseguir fazê-lo, Rui Rio não tem que se preocupar muito com os críticos internos. Tipicamente, nos grandes partidos, os militantes movem-se em manada. Sempre na direção do poder e sempre na esperança de que sobre algum para eles. Mas se ao nariz dos militantes não começar a chegar o cheiro a poder e se, ao mesmo tempo, internamente ficarem feridas abertas (daquelas que demoram anos a sarar), Rui Rio arrisca-se a ter uma curta história como líder do PSD.

Para já, na sala do congresso do PSD, em Lisboa, há uma clara sensação de azia, uma indisposição mal disfarçada pelos sorrisos de circunstância e pelos abraços de união. É tomar uns sais de frutos. Ou colar um penso de nicotina.

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