A sentença de Centeno

"A Opinião" de Nádia Piazza na manhã da TSF.

É hoje. É hoje que a Assembleia da República vai, esperemos, decidir definitivamente a vida de milhares de funcionários públicos das carreiras especiais, isto é, docentes de Educação Pré-Escolar e dos Ensinos Básico e Secundário, magistrados, oficiais de Justiça, militares das Forças Armadas e militares da Guarda Nacional Republicana.

O que está em causa é a contagem parcial ou integral do tempo de serviço para efeitos de progressões, que estiveram congeladas entre 2011 e 2017 nestas carreiras.

Dito assim parece algo relativamente linear, uma opção política a tomar com consequências, mas à boa maneira portuguesa de fazer política este foi um processo moroso e claudicante, com muitas expectativas criadas, com vetos e retomar das conversações entre o Governo e os sindicatos, sem resultado, por fim.

Mais que de repente, e num jogo de bastidores, a Comissão de Educação e Ciência, no Parlamento, por momentos, ia baralhando as contas ao Governo quando aprova uma proposta para a reposição integral do tempo de trabalho dos professores, juntando PSD, CDS, BE e PCP, e que ficou marcada por uma foto que mais lembrava a Última Ceia.

Mas, nesta versão, a crucificação do PM, autoinfligida, diga-se de passagem, dar-se-ia hoje, sexta-feira quando todos os partidos, à exceção do PS, aprovariam as reivindicações dos professores.

A sentença é de Centeno e Centeno é o Presidente do Eurogrupo. Está no topo da agenda de Mário Centeno zelar pelas regras orçamentais europeias e orçamento para a zona euro. Se não der o exemplo em sua própria casa, perde autoridade lá fora e ponto final. É um risco que não quer correr. A forma como esse assunto foi colocado contribuiu para que fosse a grande questão de honra desse fim de legislatura. A questão é que, a meu ver, não tinha que ser. Calhou foi na altura errada e serviu de cenário e serviu-se de muitos fantoches para jogos políticos em ano de europeias e legislativas.

E Centeno, para fazer parte de um próximo governo PS, tem de ser respeitado à risca.

Com tantos motivos para uma demissão nesses últimos dois anos, não foi a morte de 120 pessoas e centenas de feridos em 4 meses nas maiores tragédias em que o Estado falhou em toda a linha, nem com o inadmissível definhar do SNS e o sistemático atraso no pagamento das pensões que fizeram tremer o Governo em consciência...

Mas a novela não acabou assim.

Eis que surge um parecer da Unidade Técnica de Apoio Orçamental, unidade que dá apoio à AR, e fá-lo por iniciativa própria e por interesse público, e instala-se a dúvida nas contas do Ministério das Finanças sobre o impacto da recuperação integral do tempo de serviço das carreiras especiais.

Em que ficamos, afinal? A Assembleia decidirá. Melhor dizendo, Centeno já decidiu. Porque é o "vai ou racha" para o Governo. E a oposição quer menos eleições antecipadas do que decidir por convicção. Se calhar nunca a teve, nesta matéria, senão não titubeava.

Dá-se a impressão que quer uns quer outros jogam com a vida das pessoas como meros peões de um jogo enfadonho meio a sua carreira política. A vida, porque se falássemos em expectativas, então, já teríamos uma multidão de coletes amarelos nas ruas.

Ou melhor, teremos, mas rumo à Fátima.

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