A Opinião

"Agora há dois extremos: não é a esquerda e a direita, é a democracia e a ditadura"

"O povo só é povo quando encontra um destino comum baseado em valores partilhados e, para isso, precisa de lideranças", defendeu Daniel Oliveira, esta terça-feira, no espaço "A Opinião", que ocupa na TSF.

O jornalista e comentador opõe a conceção de "povo", à de turba, "uma multidão sem rumo, manipulada por oportunistas, que se move pelo ressentimento e pelo ódio".

Para Daniel Oliveira, nos últimos 12 anos que o Partido dos Trabalhadores (PT) esteve no poder no Brasil, os brasileiros "quase foram um povo" (com fenómenos como a chegada da eletricidade, pela primeira vez, a muitas casas e a entrada das classes mais desfavorecidas nas universidades). "O Brasil passou a ser também dos pobres, dos negros, dos favelados", defende o comentador.

Mas apesar do salto que deu, o PT usou a corrupção para construir maiorias políticas e manteve uma economia extrativista (dependente dos recursos da natureza). Na ótica de Daniel Oliveira, o PT "falhou porque não mudou o que tinha de mudar" e, inevitavelmente, a crise chegou. E quando chegou, a direita tradicional acreditou que era o momento do "tudo ou nada".

"Não se limitou a fazer oposição, organizou um golpe. Violou a Constituição, fez cair a presidente legítima em poder" - Dilma Roussef, que, salienta o jornalista, era um dos poucos nomes na política brasileira sem acusações de corrupção.

Na opinião de Daniel Oliveira, aquilo que a direita tradicional não antecipou foi que os eleitores olhariam para o golpe de Estado como forma de legitimar a rutura constitucional que esta direita apenas lhe "sussurrava", enquanto "Jair Bolsonaro gritava".

"Amarrada ao impopular governo de Michel Temer, a direita deixou Jair Bolsonaro sozinho no meio do caos - e nas eleições de domingo, a direita tradicional foi dizimada, foi a maior vítima do clima que ela própria criou", frisa Daniel Oliveira.

"Contra os miseráveis, contra os bandidos, contra os políticos, contra os gays, contra os artistas, contra, contra, contra....". E, sem horizonte, "o povo transformou-se numa turba", constata. "Agora sim, há dois extremos: não é a esquerda e a direita; é a democracia e a ditadura."

(Texto: Rita Carvalho Pereira)

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