Antes do grande sobressalto

O Deutsche Bank vai despedir 20.000 pessoas, sobretudo em Wall Street e Londres. O responsável pela política de investimentos, mal orientada e mal executada, causa principal dos desaires recentes, deixa também o banco, mas com 11 milhões de dólares de gratificação - li eu aqui em Bruxelas na primeira página do último FT Weekend.

Se a gente juntar esta informação ao facto de, na crise começada em 2008, parte importante do dinheiro emprestado à Grécia pelo FMI ter servido prioritariamente para pagar a bancos alemães, cúmplices da extravagância meridional, e também ao facto de nenhum responsável de banco ou outra instituição financeira privada europeus ter ido parar à cadeia por causa da dita crise, (um ou outro matou-se: ainda há homens de honra mas já não há moral pública), não espantará que alguns de nós suspeitem que as coisas vão ter de mudar. E como "patrician reformers" dedicados a mudá-las a bem e de cima para baixo, parecem ter desaparecido (enquanto a filosofia dos actors principais do poder actual pode ser encapsulada no lema assustador atribuido a outra estrela do Deutsche, morto em desastre de avião em 2000: «Se não tens $100 milhões de dólares aos 40 anos és um falhado»), outros, menos bem educados e crentes convictos no valor curativo das revoluções, tentarão fazer a mudança a mal e a contrapelo.

Não digo debaixo para cima, porque o bom povo, antes de se meter ao barulho, e marcado pela Comuna de Paris de 1871, pelos bolcheviques russos de 1917, e por desmandos ainda piores na Ásia e nas Américas, esperará para ver qual dos lados o tratará menos mal antes de tomar partido. Acredite a leitora que vem aí uma broncalina do camandro ou uma Bernardette do caboz, e que, seja qual delas for a escolha, não será sua.

"É muito grave deixar a Europa", diz o riquíssimo Jacinto ao seu amigo José Fernandes quando o comboio saído de Paris que os levava a Lisboa ia a passar os Pirenéus.

Hoje já há pouca gente que pense assim: Espanha e Portugal são refúgios quase bucólicos, e os franceses em particular são gulosos deste recanto onde a terra se acaba e o mar começa que, tão generosamente, os acolhe no seu seio, como de croissants ou baguettes ao pequeno-almoço, mas sem nunca esquecerem que a França é o centro do mundo. Apesar de avanços da extrema direita (em Portugal não os há; em parte, porque o 25 de Abril deitou abaixo 48 anos dela, e em parte porque, ao conquistar a sua primeira maioria absoluta, Cavaco Silva foi mata-borrão que absorveu toda a direita, da mais centrista à mais extrema), grande maioria deles é a favor da União Europeia, mas não à nossa maneira.

Portugal quer estar na União para ficar mais europeu; a França que estar na União para que esta fique mais francesa. Vivi em França de 1977 a 1980, e achei que os franceses eram portugueses bem sucedidos, e, portanto, mais arrogantes e menos simpáticos do que nós. Só vão ao sítio se tratados mal, o que será incompatível com regras básicas de turismo. A ver vamos.

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