As "invasões" santanistas e o papel dos media

A discussão é tão antiga quanto a democracia. Qual é o papel da comunicação social num processo eleitoral? A resposta, para um jornalista, é relativamente fácil: informar de acordo com um critério editorial. Mas esta semana leva-nos à evidência de que esta ideia não é assim tão clara para toda a gente. Sobretudo para muitos dos atores políticos.

Já se fizeram e refizeram as leis, mas não há lei que evite que, a cada eleição, se continuem a amontoar nas secretárias dos diretores dos órgãos de comunicação social as queixas dos partidos políticos. Umas vindas da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Outras da Comissão Nacional de Eleições. E outras, ainda, vindas dos próprios partidos. Todos têm razões de queixa. Uns porque "apareceram" menos dois minutos. Outros porque não tiveram cobertura jornalística numa determinada ação de campanha. Outros ainda porque não gostaram do "tom" do jornalista. E muitos - os chamados pequenos partidos - porque não gostaram de ser excluídos de um determinado debate. Ser diretor de um jornal, de uma rádio ou de uma televisão também é isto: passar horas ao computador a responder às queixas de políticos. É a vida.

Esta semana, Santana Lopes decidiu inovar. Num ato, no mínimo, insólito, o líder do Aliança decidiu arregimentar umas dezenas de militantes e "invadir" a Entidade Reguladora da Comunicação Social para se queixar da cobertura - ou da falta dela - que o seu partido tem tido nos media. O "número" foi pensado e executado com um único propósito: conseguir a atenção da comunicação social. Ser notícia.

Eu percebo a angústia de Pedro Santana Lopes. Afinal, enquanto militou no PSD, e sempre que se candidatou a algum cargo, as câmaras de televisão, os microfones e os gravadores nunca o largaram. Mas, tal como eu, profissionalmente, não me "chamo" apenas Anselmo Crespo - chamo-me Anselmo Crespo da TSF -, politicamente, Santana Lopes, hoje, já não se chama Pedro Santana Lopes do PSD, chama-se Pedro Santana Lopes do Aliança. E isso, politica e editorialmente, faz toda a diferença.

O PAN, há quatro anos, tinha menos cobertura mediática do que o Aliança tem hoje - até porque Santana Lopes é um ex-primeiro-ministro - e não foi por causa disso que não elegeu o seu primeiro deputado. Quatro anos depois, a atenção dos órgãos de comunicação social ao PAN é muito maior? Naturalmente. Os eleitores deram-lhe representação parlamentar. Da mesma forma que o PS tem mais cobertura mediática do que o PCP ou que o PSD tem mais cobertura mediática do que o CDS. Os partidos políticos têm a relevância eleitoral que os eleitores lhes dão. E é essa relevância eleitoral que determina, em grande medida, a relevância editorial. É assim em Portugal. É assim em todo o mundo.

Mas há um outro fator de que nem Santana Lopes nem nenhum político se podem esquecer: o estado depauperado em que se encontram as redações. O irónico nesta "invasão" do Aliança à ERC é que mesmo que a TSF quisesse mandar um repórter para fazer a cobertura, podia não ter nenhum para mandar. Porque, nos últimos anos, foram mais os que saíram do que os que entraram. Porque muitos abandonaram o jornalismo, fartos da precariedade dos seus empregos e desiludidos com a profissão. Porque as dificuldades com que as empresas de comunicação social se vêm debatendo nos últimos anos - em grande medida por causa de um mercado cada vez mais desregulado e ao qual o poder político não presta nenhuma atenção - está a colocar em causa a sobrevivência e, muitas vezes, a independência dos órgãos de comunicação social. Porque, no limite, estamos num período de férias e isso deixa qualquer redação - diria mesmo, qualquer empresa - mais limitada nos recursos humanos que tem disponíveis.

Mas mesmo que a TSF tivesse um repórter para enviar à ERC, para cobrir a "invasão" do Aliança, enviaria? Provavelmente não. Se não há jornalistas suficientes para cobrir diariamente os partidos com representação parlamentar, porque devemos nós cobrir um "número de circo" político, montado como isco para atrair atenção mediática? É notícia? É. E a TSF, tal como quase todos os órgãos de comunicação social, veiculou-a. Não só porque o insólito, em jornalismo, é um dos critérios de notícia - e Santana sabe disso -, mas porque, na base desta "invasão", está uma mensagem política - logo, está uma notícia. Mas que tem que ser dada com a conta, com o peso e com a medida que tem.

Aos órgãos de comunicação social exigem-se critérios editoriais claros, coerentes e justos. Discutíveis? Sempre. Mas no dia em que os órgãos de comunicação social abdicarem deste princípio, é a liberdade de imprensa - logo, a democracia - que fica em causa. E quanto menos pessoas tiverem as redações, mais rigorosas elas têm que ser com os critérios editoriais que adotam.

Nunca ninguém me ouvirá a defender que os órgãos de comunicação social fazem tudo bem. Não fazem. Erram muitas vezes - na esmagadora maioria dos casos, estou em crer, de forma inconsciente. Mas também são capazes de corrigir os erros e, seguramente, já pediram mais vezes desculpa aos leitores, ouvintes e telespetadores, do que alguma vez os partidos políticos aos seus eleitores. Enquanto o jornalismo - tal como a política - for feito por pessoas, o erro é e será sempre uma possibilidade.

Mas, no caso em apreço, e já que estamos em período de campanha eleitoral, em vez de "invadir" a Entidade Reguladora da Comunicação Social, talvez fosse mais útil começar por reformá-la. Ou, pelo menos, propor medidas concretas para o fazer. Não são aquelas banalidades que se escrevem nos programas eleitorais - "repensar o modelo de funcionamento da ERC" -, são medidas concretas que acabem de vez com este sorvedouro de jobs for the boys em que se transformou este organismo. Uma Entidade que regule, de facto, em vez de se ocupar a entupir as redações com burocracias e a cobrar multas. Talvez fosse mais útil termos uma Entidade Reguladora para a Comunicação Social que saiba distinguir um órgão de informação de um órgão de propaganda ou meramente comercial. Que contribua para um mercado de media com menos distorções e mais justo, em vez de fechar os olhos sabe-se lá a que interesses. Talvez tudo isso justificasse, de facto, uma "invasão" pacífica da ERC.

P.S.: Esta semana, um jornal de referência - o Financial Times - decidiu escrever um editorial altamente elogioso para o Governo de António Costa, quando estamos a pouco mais de um mês das eleições em Portugal. É que nem por encomenda!

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