Opinião

Bolsonaro e a perda de paciência

Brasileiros perderam a paciência, chegaram ao limite e estiveram perto de eleger um candidato de extrema-direita à primeira volta.

"Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma/ Até quando o corpo pede um pouco mais de alma/ A vida não para/ Enquanto o tempo acelera e pede pressa/ Eu me recuso, faço hora, vou na valsa/ A vida é tão rara/ Enquanto todo o mundo espera a cura do mal/ E a loucura finge que isso tudo é normal/ Eu finjo ter paciência."

A canção com esta letra chama-se "Paciência". Aquilo que os brasileiros perderam. No Brasil, Lenine é nome de cantor. Lenine, no Brasil como no mundo, não é nome de direita e o cantor pernambucano não consta ser um apoiante de Jair Bolsonaro. Mas os brasileiros perderam a paciência. Chegaram ao limite da paciência face ao sistema político. E quase elegeram à primeira volta um candidato que qualquer extrema-direita europeia não desdenharia apresentar como nova coqueluche. Vislumbram-se digressões ao velho continente, como se de um músico se tratasse.

Em 2013, o tempo acelerava e pedia pressa, mas as elites políticas brasileiras, especialmente as ligadas a partidos centrais do sistema político, como o PT e o PSDB, não ligaram patavina. Uma onda de protesto varreu então as principais cidades brasileiras. Um ano antes do mundial de futebol realizado no país, houve protestos contra o governo PT de Dilma Rousseff, mas também contra o atraso estrutural que o Brasil tem na saúde, nos transportes, na educação - o PSDB, que governa há mais de 20 anos o maior estado do país, São Paulo, não pode ser inocentado -, perante uma classe política consideravelmente corrupta, com os casos a sucederem-se conforme a Operação judicial Lava-Jato ia avançando - apesar de com um alvo político bem definido: o Partido dos Trabalhadores e Lula, muito em particular.

O antipetismo é, provavelmente, nesta altura, a força política mais aglutinadora do país. Essa onda de protesto contra o sistema transformou-se num mar de apoio a um candidato apalhaçado, inconsistente com os valores da democracia, que consegue passar uma imagem de antissistema quando dele tem feito parte há quase três décadas, conhecido pelas declarações bombásticas que faz, que revelam racismo pouco encapotado, apoio à ditadura militar brasileira, homofobia, defesa da tortura. Basta lembrar que o então deputado Jair Bolsonaro, na votação de destituição de Dilma Rousseff em 2016, deu vivas ao coronel Brilhante Ustra, que tinha torturado a mulher que fora opositora política durante a ditadura e que naquela altura, há dois anos, ainda era chefe de Estado. Bolsonaro assumiu mesmo que Ustra é o seu maior herói na política.

Com uma campanha low cost, de eficácia máxima nas redes sociais (não será alheio ao tipo de estratégia mediática da candidatura presidencial do ex-capitão do exército o facto de a esmagadora maioria dos eleitores com menos posses só ter como rede social o whatsapp, que traz títulos ao telefone "celular" mas com plafond que não permite navegar depois para a página ao encontro dos textos mais explicativos e contextuais), Bolsonaro arrasou: quase se elegeu à primeira, a bancada do PSL no Congresso cresceu em 52 deputados (o PT perdeu 13), o filho foi eleito para o Senado, uma data de apaniguados foram eleitos ou lideram claramente na ida à segunda volta. Os brasileiros entenderam que quem tem governado o país tem, sobretudo, desgovernado; anseiam por algo diferente que permita melhorar a economia do país. Vai daí, decidiram dar quase maioria absoluta a quem assumiu nada perceber de economia.

O Brasil daqui a três semanas decide entre a democracia e um candidato de um partido que muito lutou por ela, mas que, após anos e anos no poder, a tratou bastante mal (pior ainda, o PT tem uma enorme dificuldade em reconhecer os erros cometidos; "fez hora, foi na valsa", como diz a canção de Lenine) e, do outro lado, o perigo claro de retrocesso democrático que representa a eleição de Jair Bolsonaro.
Pode ele mudar de registo, ideias e posições, assim que chegar ao Palácio do Planalto? Em teoria, pode. Mas também se esperava o mesmo de Donald Trump assim que chegasse à Casa Branca. O resultado é o que se vê.

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