A Opinião

Borba: tudo como não tinha de ser feito

"A Opinião" de Fernanda Câncio, na Manhã TSF.

"Perante a possibilidade do colapso dos taludes, a qualquer momento." Esta frase refere-se aos taludes da estrada que na segunda-feira, dia 19, colapsou e matou cinco pessoas. E tem quatro anos.

Há quatro anos, o Governo recebeu um documento, remetido pelo então director-regional da Economia, com esta frase. E mais esta: "O colapso da estrada potencialmente acarretará consigo vítimas."

O documento foi enviado, dizem as notícias, após uma reunião da Direcção-Regional da Economia - que tinha a incumbência de licenciar e fiscalizar as pedreiras -, com a Câmara de Borba e os responsáveis pelas empresas de extracção de mármore. Nessa reunião, a Direcção-Regional terá recomendado o encerramento da estrada. Há quatro anos.

O documento era acompanhado de fotografias, e lembrava que, em caso de tragédia, a responsabilidade civil e criminal seria "das empresas exploradoras, das câmaras municipais e das entidades licenciadoras e fiscalizadoras".

Mas no gabinete governamental, a pessoa que recebeu o documento, a chefe de gabinete do secretário de Estado da Energia, diz ter achado que "tudo estava a ser feito como tinha de ser feito" e que "não era pedida qualquer decisão que envolvesse a secretaria de Estado". E, garante, nem sequer deu conhecimento ao governante.

A mesma documentação foi enviada a outros organismos do Estado, mas aparentemente todos descansaram: a estrada era responsabilidade da Câmara, portanto era à Câmara que cabia resolver.

Portanto, era à Câmara que cabia resolver se arriscava ou não a vida de pessoas. E o que a Câmara decidisse pelos vistos estava bem para todos; não era comigo, dizem. Como, não era?

Claro que a Câmara tinha a responsabilidade pela estrada, que as empresas sabiam o estado dos taludes.

Claro que este problema tem décadas, que aquela escavação excessiva é anterior a este executivo camarário e até às leis que impuseram margens de segurança para as estradas e que muita gente - toda a gente? - deve ter acreditado que, se não tinha caído até agora, já não caía.

Claro que os trabalhadores, incluindo os que morreram, tinham de ter noção do perigo que corriam. Trabalhadores que ganham 600 a 800 euros brutos, numa profissão que não é sequer classificada como de desgaste rápido - e que se calam porque é o trabalho que há ali e têm medo que acabe e que a pedreira feche.

Claro que descobrimos isto tudo agora, porque sabemos tão pouco - jornalistas incluídos. Mas, caramba. É para saber, para zelar, para certificar que não há perigos de morte diagnosticados e notificados e que nada se faz que temos uma estrutura de organismos, técnicos, decisores políticos. É por isso que se chamam responsáveis. Sejam-no.

Nota: Não uso nomes nem partidos nesta crónica de propósito. Isto é maior, mais grave, mais fundo e de certeza tão mais triste que a mesquinhez da luta partidária.

*a autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990