Opinião

Corrida: um desporto físico ou mental?

A corrida exige grandes adaptações fisiológicas e capacidades físicas elevadas. Mas se as diferenças são notórias entre o sedentário e o corredor, já não o são tanto entre corredores de elevado nível.

Se a performance a correr dependesse unicamente de parâmetros fisiológicos, esperaríamos uma diminuição progressiva da mesma ao longo dos eventos; contudo, o oposto acontece sendo a última volta à pista frequentemente a mais rápida. Este facto deve-se a uma avaliação cognitiva complexa que envolve experiências passadas, o feedback do organismo e a antevisão do final do esforço. Desta forma, torna-se impossível antever o resultado de uma final Olímpica com parâmetros fisiológicos como, por exemplo, o VO2 máximo, existindo inúmeros exemplos de atletas com aptidões cardiorrespiratórias inferiores que superam atletas com aptidões superiores em prova.

Se desconstruirmos o ato de correr, o ritmo a que nos iniciamos é decidido de forma voluntária, dependendo de fatores sociais (como a que ritmo costumam "os amigos" correr), motivacionais (o quanto queremos correr rápido, motivo pelo qual nos superamos em competições importantes) e de memórias (dos ritmos a que nos sentimos bem ou mal nos últimos treinos).

Durante a corrida, o ritmo além da zona de conforto resulta do conflito entre todos os alertas de mecanismos fisiológicos que avisam o cérebro de que existe um desequilíbrio (acidez láctica, dessaturação de oxigénio, hipoglicemia, aquecimento, etc...) e a motivação do próprio cérebro para alcançar um objetivo (por exemplo, um bom resultado numa competição). Este ajuste é feito a cada passada que damos. A forma como os diversos corredores adaptam o seu esforço à informação recebida também difere, tolerando alguns uma maior quantidade de "informação desagradável".

É ainda importante salientar que a diminuição da performance tem um componente neurogénico importante, com a diminuição de ativação do número de fibras musculares, com consequente diminuição da força muscular. Por outras palavras, independentemente da nossa vontade e de acordo com os restantes inputs, o cérebro vai "desligando" fibras musculares.

Embora exista evidência científica cada vez mais sólida da importância do cérebro na performance, o mesmo é difícil de evidenciar pela subjetividade dos parâmetros do sistema nervoso central. No entanto, um simples estudo norueguês que comparou atletas de alto rendimento noruegueses, medalhados e não-medalhados, encontrou nos melhores uma única diferença relevante: todos eles realizavam treino VMBR (Visuo-motor Behavior Rehearsal), alguns deles com volumes de treino mental superior ao físico.

Qualquer corredor já sentiu o efeito do cérebro nas suas rotinas de treino: o perder a força em competição quando o adversário nos passa a toda a velocidade (componente motivacional); o "rolar" inconsciente no dia seguinte a uma competição curta a ritmos superiores aos usuais (componente de experiências anteriores); os tempos fracos nas séries quando existe stress no trabalho; até o truque de fixar a nuca do atleta da frente e, sem saber como, manter o seu ritmo.

Todos estes fatores dão sentido ao antigo conceito do treinador-amigo-psicólogo que conhece o atleta melhor que ninguém e que realiza importantes adaptações intra e inter-treino. O atleta não é uma máquina fisiologicamente previsível mas o resultado da interação de múltiplos fatores internos e externos.

Desta perspetiva, perdem valor os planos de treino universais ganhando relevância a adaptação diária, o uso de escalas subjetivas de esforço e o uso de novos parâmetros "cerebrais" como guia de treino, como o sistema nervoso autónomo, que alguns estudos demonstram ser uma ferramenta promissora. Por outro lado, o mundo da estimulação magnética transcraniana na performance já se iniciou.

Conforme Roger Bannister, o primeiro homem a baixar dos 4 minutos na milha e, concomitantemente um distinto neurologista, já dizia na década de 1950: "It"s the brain, not the heart or lungs that is the critical organ".

(Nota: Após um longo período de tentativas frustradas, a barreira dos 4 minutos na milha foi ultrapassada várias vezes nos meses após o recorde de Bannister, reforçando a teoria da existência da barreira mental que se tinha formado).

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