Dívidas ao fisco

Quem não tem ou já teve uma dívida ao fisco nalguma altura da sua vida adulta? É quase irremediável, por mais cumpridor cidadão que se seja, e com a nossa carga fiscal e nível salarial, e sobretudo para quem tem uma empresa ao seu encargo, nalguma fase da vida privada ou empresarial, estar a 100% com o fisco.

Um parêntesis porque há sempre um Estado de exceção. Estava a me esquecer dos maiores devedores da banca desse país - aqueles do anexo sigiloso - e demais corja de corruptos financiados com o dinheiro dos bandidos-contribuintes mas que nada devem, nem se lembram e até andam em carro dos primos ou nada têm na garagem.

Já para o "Zé Povinho", o dinheiro não é elástico e corta-se de um lado para pagar doutro. E quando tudo está sob controlo, aparece uma despesa inusitada de saúde ou de manutenção, e lá se vão as contas em dia.

Este é o drama da esmagadora maioria das famílias em Portugal.

Poupança? Era bom! Somos dos países cujas famílias menos poupam. Pudera. Depois da entrada no euro de forma desregrada, da Troika e dos sucessivos cortes salariais, venderam-se os anéis, ficaram os dedos. Outros debandaram do país. O tempo das casas de compra de ouro, qual aspiradores de filigrana, felizmente já passou. E os sites de venda de bens usados são bem prova dessa maneira engenhosa de fazer brotar tostões.

Esse retrato cru da nossa vida hodierna, pacata só de aparência, que esconde uma ginástica diária e muito malabarismo, não se coaduna com o Estado relapso nas suas funções mais básicas e provedor dos grandes interesses económicos.

Mas não há aqui qualquer novidade. É a fatia do Leão.

A ação de caça ao contribuinte-devedor - supostamente devedor, já agora - realizada em Valongo revela o desespero do Estado para se financiar. Também o Estado não tem almofada e recorre a ações que mais lembram os cobradores de tributos dos senhores feudais, a sair dos casebres dos súbditos com uma rês qualquer, burros, fazendas, potes de mel...o que der para abastecer os cofres e despensa de Sua Senhoria.

O fisco, num infeliz e desproporcional exercício de poder, demonstrou que está mais para cobrador do fraque ou caça cabeças do faroeste do que entidade de um Estado de Direito - atira e depois pergunta.

É certo que estava bom tempo para se montar uma tenda ao pé de uns tantos agentes de autoridade rodoviária, assim por acaso, laçando assim os bandidos dos contribuintes que passavam a cavalo - quero dizer, de carro - pela pacata Valongo. Falar em combate à fraude e evasão fiscal dá muito trabalho. Bom mesmo é processar a vitamina D nesses dias de sol nesta nova modalidade de montaria ao contribuinte.

Ou então, estamos a ver tudo errado e o fisco juntou-se agora à GNR para uma inédita campanha de prevenção rodoviária já que o clássico "se beber, não conduza" estava gasto, para um "se dever, não conduza". De borla ainda reduzimos a nossa pegada de carbono.

Somos ou não somos desenrascados? Há que se ver o lado cheio do copo.

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