Diz-me onde começa a tua liberdade para eu saber onde acaba a minha

Alegadamente o vocalista dos Rammstein, Till Lindemann, agrediu um indivíduo no passado dia 8 em Munique, no bar de um hotel, depois do seu concerto no estádio da cidade bávara (Olympiastadion). As noticias que saíram dão conta de que, segundo testemunhas oculares, esse indivíduo procurou o vocalista para o provocar de forma aberta, "oferecendo mais dinheiro" pela namorada do Till a quem, inequivocamente, chamou prostituta. Till, exigiu um pedido de desculpas, não à sua pessoa, mas à vítima da injúria: a sua companheira. O sujeito recusou-se a fazê-lo e cerrando o punho desafiou o cantor que lhe deu uma cotovelada na boca. O indivíduo foi transportado ao hospital para ser assistido, a banda seguiu em sua tour e o vocalista dos Rammstein enfrenta agora, segundo a Imprensa, uma ação criminal por tentativa de agressão.

Esta história está contada assim online, com a devida falta de verificação de muitos dos detalhes, mas é reveladora de uma tendência que se tem agravado nos últimos tempos e que tem dado origem a vários abusos físicos e psicológicos dirigidos a "figuras públicas" e às suas consequentes e mal-amadas respostas. Neste caso em particular, os comentários online dividem-se, sem muito critério, entre pessoas que defendem a atitude do Till, e outras que o condenam. Umas que percebem o clique e a resposta instintiva e violenta; outros alegam que o cantor deveria ter sido superior e resolvido a situação doutra maneira, não apontando, porém, as características dessa alternativa.

Se a violência é sempre condenável, como devemos então entender as circunstâncias que a rodeiam? É de exigir um comportamento magnânimo a uns, enquanto se permite total liberdade de movimentos a outros? Estará a nossa sociedade, pretensamente baseada na igualdade, estratificada de tal maneira que nós próprios consideremos e distingamos entre pessoas de primeira e segunda categoria? Que tipo de responsabilidades se exigem aos "melhores"? Não será justo dotar também de responsabilidade não só o cidadão público, mas também o anónimo?

Todas estas perguntas me remetem apenas para a existência de uma situação deveras problemática que, entre todos, temos andado a "deixar passar", teorizando e problematizando pouco, limitando-nos apenas a juízos de valores de coisas que não dominamos por falta de experiências e contextos pessoais. Factos que não nos permitem, talvez, uma opinião tão absoluta como as que debitamos diariamente nas redes sociais. Por outro lado, o laxismo com que se têm encarado as disputas online é muito perigoso. A violência há muito que passou dos teclados e dos quartos de adolescente para os socos trocados na rua (ou pior). Não entender isso é fechar os olhos a um dos maiores problemas da nossa sociedade, que, à falta de melhor descreveremos como a total falência do senso comum, no que respeita à sociedade e situações que nos rodeiam ; ou simplesmente como a brutal incapacidade de recusar que existam pessoas que não pensam como nós.

O olhar sobre o outro uma vista de fora. Não é interior. Colocarmo-nos no lugar de uma pessoa é uma utopia. Apenas projetamos os nossos próprios pensamentos de como agiríamos no lugar dessa pessoa. Não nos tornamos nela. Não deixamos de ser nós a pensar. A projetar. A desassociação não existe e se existe não é isto. Por muito que se escreva, puna ou legisle, o trabalho duro está na mudança da mentalidade. Acabar com as noções preconceituosas não só do tal juiz, mas com as de todos nós, sem pasta ou mandato. Ajudar a termos mais que um entendimento coxo do que são os limites e de quem os deve traçar. De deixarmos de fazer uma demasiadamente fácil confusão entre vitima e agressor. Anularmos os nossos erros de avaliação perante situações como as que descrevi, com o cantor dos Rammstein. Vítima ou agressor? Os polos não se atraem nesta formulação. Confundem-se.

Conheço o Till pessoalmente desde há 20 anos. Estivemos juntos pela primeira vez num festival na Áustria. Na sua primeira vez em Portugal fomos todos ao Bairro Alto, no conforto do nosso anonimato da altura, comer queijo de cabra e beber vinho tinto. Editei a sua poesia em Portugal (Nas noites tranquilas). Sempre o vi a comportar-se como um cavalheiro, em todas as ocasiões, com homens ou mulheres. Não o pretendo defender, mas também não o julgo. Não sei o que se passou. Não estava lá. Mas se bem o conheço, isto é uma coisa nova na vida dele, de que não gostará de falar. Ninguém o pode censurar. Mas testemunho o seu bom carácter. De quem o provocou nada sei, só sei que tinha um problema em relação ao Till e é desse "problema" que interessa falar, analisar, tentar compreender. Porque aí sim, haverá caminho para uma normalização urgente das relações entre públicos e anónimos.

Não me venham dar o argumento de ser superior. As boas pessoas defendem-se. Não ficam à espera do golpe final. Não me venham dar o argumento de que para cada hater há milhares de lovers. É verdade. Mas bastou um para matar o John Lennon e todas as pessoas que o amavam, nada mais puderam fazer que chorar a sua morte. Estávamos no ano de 1980, estamos agora em 2019. Temos oportunidade de aprender, prevenir, resolver. Nesse sentido, estou a dar os primeiros passos, com profissionais da área, para fazermos uma colaboração multidisciplinar, através de uma associação, que aproxime a Psicologia da Música e demais Artes ou carreiras públicas, como já acontece e bem no Desporto. Que os ajude a mediar o bullying, as expectativas, a gestão das suas carreiras e famílias. Uma ideia positiva que retiro das minhas experiências pessoais com o acima descrito e com a qual procurarei saber o porquê de tanto ódio, intolerância e abuso perante as "figuras públicas" de modo a ter resposta para o enunciado que dá título a este artigo.

Nota: informação atualizada e oficial indica que a situação descrita no texto não diz respeito à namorada de Till mas sim a uma amiga em comum do casal. A namorada não estava presente mas veio em defesa do seu companheiro.

Texto atualizado às 23h30

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