A Opinião

Dormindo com o Inimigo

"A Opinião" de Nádia Piazza, na Manhã TSF.

No dia 25 de novembro assinalou-se o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. O gabinete da ONU sobre Drogas e Crime concluía que das 87 mil mulheres mortas no período em análise, quase 50 mil - ou seja, impressionantes 58% - foram assassinadas por entes próximos ou companheiros, ou seja, "isto significa que cerca de seis mulheres são mortas a cada hora por alguém que elas conhecem", refere o relatório.

Surgiu-me à mente automaticamente um filme: "Dormindo com o Inimigo", um suspense psicológico de 1991, em que Julia Roberts protagoniza uma esposa subjugada por um marido galante mas que, ao final de um certo tempo de enamoramento, revela-se extremamente violento e possessivo. Ela, o estereótipo da mulher submissa. Isolada de todos a sua volta, família e amigos, sem qualquer autonomia financeira e liberdade.

O filme não tem nada de especial, não fosse um retrato aproximado de muitos relacionamentos tóxicos que mulheres e adolescentes vivem ontem como hoje.

A verdade é que a ficção não consegue, nesse caso, imitar sequer a realidade. É bem mais dura, encapotada e silenciosa a realidade a que muitas mulheres se encontram sujeitas. Trata-se de uma escalada progressiva de abusos do foro psicológico, moral, social, financeiro e, por fim, físico contra as mulheres.

E apesar de os números indicarem ser um problema sobretudo de estratos sociais menos favorecidos, famílias pouco estruturadas, ou com pouca formação, o certo que é a violência contra a mulher existe e ganha nuances em todos os estratos sociais, variando apenas na forma e no grau de requinte.

Mulheres aparentemente bem resolvidas na vida profissional, muitas vezes são vítimas envergonhadas da sua condição.

Diz-se que as mulheres sábias e resolvidas preferem, hoje, a solidão.

Parece haver uma incapacidade crónica por parte das mulheres de se revoltarem e que só se consegue na união. As mulheres têm um problema em manterem-se unidas nas causas. Atribuo isso ao complexo de princesa com que foram - fomos - criadas desde tenra idade.

Por fim, a solução também pode passar pela educação. É que estamos a criar princesas que devem ser perfeitas, até a suportar uma carga de pancada. Tudo normal, desde que não fumem, tal como no reclame.

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