Duas leituras alternativas sobre Joe Berardo

O julgamento público do empresário madeirense deveria ser o início de uma discussão maior sobre a nossa sociedade e a nossa economia.

1.

Quarenta e cinco anos depois do 25 de Abril, Portugal continua a ser liderado pela geração nascida antes da revolução. Rompidas as dinâmicas naturais de substituição geracional, os nascidos antes de 1974 foram forçados, ainda jovens, a assumir responsabilidades quiçá desproporcionais para a sua jovem idade ou, entre os civis, para as suas inacabadas qualificações profissionais. Mas apesar das dificuldades iniciais, essa geração foi marcante para Portugal. Foram eles que nos doaram a liberdade e a Europa e nos arredaram da extrema pobreza. Foi com essa geração que conhecemos o ensino secundário e depois os canudos das universidades e que começamos a ter filhos numa cama de hospital.

Mas esta também é uma geração que se afeiçoou aos confortos do poder. Habituada à pequena distinção das comendas e do título de dr., interpreta a concorrência como vexação. Com vistas padronizadas e costumes conservadores, desconforta-se perante as diferenças de uns (de pele, de género, de orientação sexual) enquanto sobrevaloriza os que considera mais elevados. Na política, não tendo tido experiências profissionais fora do alcance da sua influência, fica alvoraçada com a possibilidade de ser revistada pelo mercado de trabalho. País pequeno, onde todos se conhecem, a cumplicidade dos pares sempre protegeu mais que o currículo. E tendo enfrentado os agrumes de uma vida de escassez, sempre foi mais fiel ao vale-tudo do que à filantropia.

Alguns desafios da sociedade portuguesa - como o machismo, a violência doméstica, o sentimento de posse, a ostentação ou o racismo - derivam, em larga medida, da forma como essa geração foi educada e educou. Ricardo Salgado, Joe Berardo, João Pereira Coutinho, Diogo Vaz Guedes, Nuno Vasconcelos, Zeinal Bava são produto de uma biosfera onde o despreparo, o egocentrismo ou o facilitismo nunca foram rebatidos pelo bom senso nacional.

Desde que voltei para Portugal há alguns meses depois de 18 anos fora, tenho conversado muito com portugueses nascidos depois de 1974. É uma das nossas melhores gerações. É qualificada, globalizada, patriótica e facilmente ri de si mesma. Há valor e inovação tanto no interior quanto no litoral. Mas também é a mais frustrada, porque a renovação geracional continua a adiar-se e os espaços de poder mantêm-se fechados. O itinerário lusitano de tomada do poder político - das jotas partidárias à assessoria política, da chefia de gabinete à secretária de estado, e de deputado a ministro - é geralmente um processo castrador de vontades próprias e de clonagem de comportamentos antepassados. E por isso não interessa a uma nova geração que acredita em mérito, comunidade, tecnologia e esforço.

A renovação das lideranças, tal como a redução do défice público, deveria ser um compromisso nacional.

2.

Berardo também foi beneficiado pelo fato de não haver uma óbvia cultura de responsabilidade corporativa em Portugal. Contrariamente a muitos países europeus, ainda falta escrutínio público, legal e financeiro de gestões fraudulentas.

Sem qualquer tipo de romantismo ou moralismo, a economia sustentável cresce apressadamente visto que é mais lucrativa do que a economia tradicional. Empresas e produtos financeiros que são governados de acordo com princípios de responsabilidade e transparência, que não geram risco para o meio ambiente e que estão alinhados com os interesses da sociedade, são simplesmente mais lucrativos. Se há 10 anos isto representava um nicho, hoje a economia sustentável corresponde a 31% do mercado de capitais. É uma das maiores transformações do capitalismo.

Mas Portugal está atrasado. Na lista das 100 Empresas Mais Sustentáveis do Mundo (da Corporate Knights), não existem corporações nacionais. E outros índices, como o Dow Jones Sustainability Index ou o World"s Most Ethical Companies, contam com pouquíssimas empresas nacionais, geralmente apenas a EDP, Galp e Jerónimo Martins.

Coincidentemente ou não, as empresas portuguesas que atingem estes índices de responsabilidade corporativa têm parte do seu capital detido por alguns investidores europeus e americanos (como o Norges Bank ou a BlackRock) que pressionam as empresas do seu portfólio a tornarem-se mais responsáveis e sustentáveis, visando também uma maior rentabilidade.

Falta-nos melhorar a nossa capacidade de formar gestores com mais inclinação para a responsabilidade corporativa. Falta-nos termos mais empresários éticos, filantropos e responsáveis que possamos homenagear publicamente. Falta-nos muito mais rigor na aprovação de crédito e faltam-nos índices nacionais de avaliação da responsabilidade e sustentabilidade das empresas nacionais (como o Índice de Sustentabilidade Empresarial brasileiro ou o Good Governance Index britânico).

A comoção nacional contra Joe Berardo precisa de ser acompanhada de medidas concretas para enfrentar o contexto propício à sobrevivência de empresários como ele. Se nada for feito, seguir-se-ão mais crimes e autos-de-fé.

*Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e California-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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