Embaixadores sem mandato

"Tomaram os artistas Portugueses, festivaleiros ou não, ter um por cento da atenção ou do investimento que é feito por alturas do ressuscitado Festival da Canção durante as suas carreiras."

Eu gosto muito daquela "cena" Hegeliana da Astúcia da Razão, quando a Razão "instrumentaliza" uma figura histórica para atualizar e e levar a cabo os desígnios do zeitgeist. Eles foram Césares, Napoleões, Alexandres. Tudo dominado pelo geist a batalhar a eito, a construir estradas que levavam a Roma, a fundar bibliotecas depois queimadas, a fazer leis e a mudar mentalidades, mas também a esmagar revoltas, a dominar países estrangeiros, a escravizar povos inteiros, porque os Homens da Razão não deixam de ser Homens. Se Hegel engendrava isto tudo muito bem no seu esquema de ideias, o Tempo foi-se encarregando de nos deixarmos de filosofias. No entanto, muitos homens ainda se acham numa missão superior, onde Deus, Politica e Economia desempenham o papel da velha e usada Razão com os resultados que são conhecidos ao que podemos subtrair, por ora, o evidente progresso que historicamente podemos avaliar no que respeita ao trabalho e à destruição dos outros sócios mais antigos na arte de mandar.

Quando alguém representa Portugal num certame internacional, seja o Europeu de Futebol ou a Eurovisão, de imediato se lhe cola o rótulo de embaixador de todos nós e bem depressa lhe atiramos para as costas todo o peso do nosso orgulho nacional juntamente com as nossas expectativas. As de um povo que se sente não diria mal-amado, mas, talvez, subestimado, apesar de todas as provas dadas em contrário e da nossa capital rebentar de turistas pelas costuras. No que toca ao Festival que há meros dois anos nos encheu o peito e nos fez antever o muito aguardado domínio da Música Portuguesa lá fora, toda a gente que assim pensava ( e foi muita) levou agora um balde de água bem gelada, ainda por cima numa eliminação esquisita caso o critério fosse feito das características da música e artista escolhido à medida para representar Portugal este ano. Não resultou assim.

Sendo uma competição, temos de a encarar como tal e os artistas que lá tem ido -e todos tem demonstrado uma validade e pertinência que vai para além do Festival - são os primeiros a dar conta disso e a reagir conforme, usufruindo da experiência e publicidade que lhes é dada, mas também em consciência dos riscos que correm. Riscos inerentes ao ser músico. A seguir, "voltam" às suas carreiras, dando a volta o melhor que podem mesmo se "esquecidos" por um público que segue o festival e não exactamente os artistas que lá vão.

Muitos dos nomes grandes em Portugal e, porque não, algumas das melhores canções da nossa modernidade não só não ganharam Festivais da Canção como tiveram revezes por vezes polémicos, quer em Portugal, quer na Eurovisão. Esse historial poderia ajudar a entender melhor "as derrotas" que afinal não o foram, tal como esta não o será. As decisões do júri e do povão demonstraram quase sempre predileção por tudo o resto menos pela qualidade musical, tendo sido a canção de Luísa Sobral - independentemente dos gostos musicais - uma honrosa excepção nessa matéria, olhando, em especial, aos últimos anos do Festival onde vale tudo até arrancar olhos e tímpanos com tanto FX e autotuner. Não admira que o seu irmão, vencedor do Festival, se afaste a sete pés não do tema com que arrebatou, contra tendência, o evento, mas de todo o ambiente e perspectiva festivaleira. As suas opções musicais, avessas ao mainstream não mentem. É, doutro modo, um exemplo perfeito da inteligência dos músicos com que encaram estes "desafios" e sinónimo de que os entendem e gerem bem melhor que toda a produção e promoção histérica que os acompanha que diz sem pensar e fala sem saber. Essa é a diferença entre as pessoas da "rádio, televisão e indústria" que se comportam quase como uma claque futebolística, ao sabor dos bons resultados; e os músicos que conseguem ver um pouco mais além. Afinal dar o corpo e o talento ao manifesto será sempre um acto mais pessoal e por isso mais corajoso do que fazer estratégias, cobrir eventos e estar sempre ao telefone a inventar vídeos virais.

Esta noção que, por exemplo, Júlio Resende (que colabora com Salvador Sobral) demonstra ao afirmar que o mais difícil é gerir a efemeridade e dar a volta por cima com um projecto mais comprometido com a música e com o estilo que designa cada artista, é muito importante para entender tudo isto. Sem a pressão de vencendo ou perdendo um festival ter de levar com Portugal todo às costas, o artista regressa a um habitat natural que na maioria dos casos contrasta com o berrante e agudo do festival. Como se viu em Tel-Aviv, a música pode não ser boicote político ou "fogo de artifício" mas a música do Festival é, na sua apatia de cantar sobre galinhas ou vociferar em húngaro sobre desamores, tudo menos social, é Pop da pior espécie que nos mostra o que de pior e não o melhor que se faz em cada país, salve-se Portugal que com os seus novos modos e reputação de vencedor tenta ter qualidade nas composições para o Festival. Ademais quase 100% do que se ouve no festival Eurovisão é pouco mais que o tal fogo que arde e depressa alimentado pelas campanhas telefónicas, pelas mobilizações massivas, pelas frustrações musicais dos países, pelos votos pagos e campanhas online, pelos bicos de pé dos países pequeninos e pelo terrível mau gosto dos grandes. Um mundo à parte, com um canal próprio de divulgação, produção e investimento que raramente vezes casa com a indústria da música ou com a realidade dos músicos. Um cometa que aparece uma vez ao ano, durante uns meses, e se retira para outra galáxia à espera do ano que vem. Carregar a frustração de um país é algo que não se pode exigir a quem só quer cantar e divulgar o seu trabalho. Representar Portugal é somente um estado de espirito que nem sempre se consegue invocar. Uma embaixada sem mandato.

Para rematar, tomaram os artistas Portugueses, festivaleiros ou não, ter um por cento da atenção ou do investimento que é feito por alturas do ressuscitado Festival da Canção durante as suas carreiras. Aí sim poderíamos pensar em ditar tendências e assumir com alguma propriedade que o que consumimos cá pode ser exportado e entrar no circuito de vez, seja por que porta for. Mas sem vitórias a curto prazo, o entusiasmo pelo Festival tenderá a desaparecer do radar das pessoas ou a entrar nele pela negativa. Sem a oportunidade da popularidade ou perante o risco de publicidade negativa, os compositores e interpretes Portugueses irão pensar duas vezes antes de se meterem nesta dinâmica que não se não construir algo de verdadeiramente mais notável que uma única vitória nos livros, acabará por consumir muita da atenção e dinheiro com os quais se poderia dotar tanta da música que se faz em Portugal.

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