A Opinião

Ensaio de uma sociedade falocêntrica

A "Opinião" de Nádia Piazza, na manhã da TSF

Um advogado, o nome do causídico não direi - já estou como a Primeira-Ministra da Nova Zelândia -, por respeito à tão nobre profissão e profissionais, em fase de recurso para o Tribunal da Relação de Lisboa num processo em que o seu cliente foi condenado a oito anos e quatro meses de cadeia "por violação na forma agravada" da sua filha menor, saca de um incidente processual de recusa de juiz, solicitando à Desembargadora Adelina Barradas de Oliveira que se declare "impedida de julgar", de forma a que seja "substituída por um juiz desembargador homem porque entende o Ilustre mandatário que a magistrada, por ser mulher e mãe, não seria tão - o pormenor está no tão (!) - imparcial quanto um juiz homem."

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Mas vamos à pérola que já me seca a boca, certamente digna de ser costurada ao peito do seu autor, tal como a Letra A de adúltera na antiga Salem, hoje Massachusetts, do século XVII, colonizada por puritanos vindos de Inglaterra:

Então, eis que num mundo de trevas se fez um rasgo de luz e uma voz vinda do alto vaticinou:

"Antes de ser magistrada judicial, a Veneranda Juíza Desembargadora é mulher e certamente mãe, o que leva a que o horror e a aversão inata ao ato de incesto confessado pelo arguido (...) e o facto de acusar a sua filha de o ter seduzido, provoquem no seu espírito, incontestavelmente, uma especial e mais gravosa oscilação na neutralidade exigida perante o mesmo. (...) Os autos incluem-se na percentagem muitíssimo marginal e excecional dos processos em que é humanamente impossível a uma juíza mulher e mãe ser tão imparcial quanto um juiz homem".

Se a moda pega nessa nossa sociedade com laivos falocêntricos, estou mesmo a ver os magistrados a serem escrutinados na sua vida privada antes de verem atribuídos um processo judicial, sobretudo ligados ao infanticídio, ao feminicídio, à violência doméstica, violação ou abuso de menor, e, já agora, casos ligados a grupos de interesse, sobre o vosso: género, opção sexual, confissão religiosa, estado civil, clube de futebol, confrarias ou lojas a que pertencem, animais de estimação, e a idade também há-de contar para os descontos, entre outros.

Pergunto-me se mais idade e maior carreira fariam das juízas conversadoras no cômputo do escrutínio, portanto duras para com o seu próprio género, ou se novas e com poucos anos de carreira, feministas carrascas de certos espécimes masculinos?

Na lógica do advogado sem nome, contará. E conta sobretudo o facto de a Desembargadora ser mulher e provavelmente mãe. Sim, uma mulher com mais de 30 anos de carreira na magistratura só pode ser mãe, uma vez que seria impensável e um pecado a não procriação para que as mulheres da costela e barro foram feitas.

As Senhoras Magistradas, se tiverem a indecência de terem filhos - e ai de Vós se forem divorciadas ou mães solteiras -, levam logo com uma cruzinha em "desconforme" ou "inapta" para o julgamento de outro ser vivente, de preferência homem, violador, abusador de menores, agressor doméstico nas horas vagas e afins.

Isto é mesmo caso digno de psicanálise já que, da Ordem dos Advogados, nem um pio.

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