bloco de notas

Europa não. Portugal, nunca!

"O Partido Conservador que se dilacera há mais de 20 anos sobre a questão europeia deu provas de nem perceber o que a saída acarretava nem saber negociá-la."

Tal era o grito de guerra, princípio de vida, lema de campanha do malogrado Mário Viegas quando se candidatou à presidência da nossa República. Não me lembro de apelo mais lúcido vindo de nenhum país europeu, substituindo Portugal pelo nome de qualquer dos outros 28 - um dia destes 27, se rasgo de bom senso britânico que parece extinto ou vítima de convulsões suicidárias, não pedir, como pode ainda fazer sem autorização seja de quem for, a anulação do seu fanfarronado anúncio de saída, ficando tudo como dantes.

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Se tal não acontecer (e se as duas Câmaras de Westminster, a dos Comuns e a dos Lordes, não aceitarem o plano de Theresa May) o dia-a-dia dos ingleses (e escoceses, galeses, irlandeses do Norte) será muito mais caro, laborioso, incerto e irritante do que é agora, o PIB receberá um rombo de que levará muitos anos a recuperar e - isso são favas contadas - a Irlanda do Norte resvalará outra vez para a guerra civil.

Toda esta tragédia - não há outro nome a dar-lhe, a não ser quiçá ópera-bufa - porque meia dúzia de tontos nostálgicos de grandezas imperiais mitificadas, de súcia com aprendizes de ditador fartos do rame-rame da paz democrática, mentiram escandalosamente aos súbditos de Sua Magestade Britânica (é assim que se diz; cidadãos é nas repúblicas) sobre as consequências de sair da União (contaram ao povo que ficariam mais ricos quando, se tal chegar a acontecer, ficarão garantidamente mais pobres).

O Partido Conservador que se dilacera há mais de 20 anos sobre a questão europeia deu provas de nem perceber o que a saída acarretava nem saber negociá-la. Os Trabalhistas são dirigidos por esquerdista irreformável da velha escola, que agrada à ala mais barulhenta e descerebrada do Partido e torna este alternativa de poder inaceitável para a maioria dos eleitores que, com um Tony Blair ou um Gordon Brown do outro lado da «Casa» já teria mandado os Tories às ortigas.

Vou deixar os «bifes» pela mão de um deles - «O patriotismo é o último refúgio do tratante» disse o Dr. Johson que na sua terra é quase tão citado como Shakespeare e do lado cá do Canal da Mancha passa por indústria farmacêutica - e voltar à Pátria.

Na primeira Grande Guerra, médico mobilizado, amigo do meu avô, pavoneava-se por Évora já fardado para a Flandres, enquanto em Lisboa movia influências que o deixaram ficar em Portugal. Inglês da Várzea de Colares espantava-se por eu dizer tanto mal de Portugal e ele só dizer bem.

Expliquei-lhe que ele gostava do país e eu o amava: caso houvesse uma broncalina do camandro, ele punha-se ao fresco e eu, se preciso fosse, ficava e morria. (Quem ama a Pátria é assim; depois há os que a namoram como Eça achou que Pinheiro Chagas fazia). A maior exigência tem de ser com os nossos. Os Pais jantavam num hotel em Sevilha quando grupo palreiro de portugueses entrou. Sem combinação prévia, passaram a falar francês um com o outro. Nessa altura em Portugal havia nós e eles. Hoje não é tão simples.

José Cutileiro publica originalmente este Bloco de Notas no blogue Retrovisor . O autor não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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