Opinião

Incógnita desfeita. "Rui Rio afastou de forma clara a ideia de bloco central"

Anselmo Crespo, subdiretor e editor de politica da TSF, analisou o discurso de candidatura de Rui Rio, considerando-o "coerente" e expectável em vários aspetos".

Um discurso que toda a gente conhece e, por isso, "coerente e expectável", e que foi ensaiado várias vezes nos últimos anos. É esta a opinião de Anselmo Crespo, subdiretor da TSF, sobre o discurso de candidatura à liderança do PSD de Rui Rio.

"Foi expectável em vários aspetos. No tipo de discurso que apresentou ou com que se apresentou à candidatura. Foi um discurso que ensaiou várias vezes nos últimos anos. Um discurso de que é preciso reformar o regime e renovar a classe política. Dar-lhe mais competência e qualidade. É um discurso que já toda a gente conhece e que Rui Rio defende, e desse ponto de vista é coerente mas é ao mesmo tempo muito expectável que seja essa a grande linha de orientação política de Rui Rio".

Em relação à principal incógnita, que passava por saber se Rui Rio afastaria a ideia de um bloco central, o editor de Política da TSF considera que a resposta foi muito clara.

"Depois há a principal incógnita, que era perceber se afastava o cenário de bloco central. Ele foi espicaçado por Pedro Santana Lopes, que ontem disse que o que distinguia os dois era exatamente isso, era que Santana Lopes era contra a ideia de bloco central porque o PSD era um partido de poder e Rio Rio respondeu-lhe dizendo exatamente a mesma coisa, que o PSD é um partido de poder e não é muleta de ninguém e, portanto, afastando a ideia de bloco central, e afastando-se de uma ideia construída e que é rigorosamente verdadeira, que Rio Rio é amigo de António Costa, que os dois se dão bem e que seria mais fácil um entendimento entre eles do que entre Costa e outro líder do PSD".

O discurso de Rui Rio, nota Anselmo Crespo, foi pautado ainda pela tentativa de recolher apoios nas várias fações do partido, incluindo os daqueles que estarão com Pedro Santana Lopes.

"Eu diria que Rui Rio dá uma no cravo e outra na ferradura. Ele não vai arrancar agora para esta campanha, ele já está em campanha há algum tempo. Hoje formalmente anunciou a candidatura, mas este era o segredo mais mal guardado da política. Ele tenta ir buscar apoios a várias fações do PSD. Quando elogia Passos Coelho, mas também quando diz que esta conjuntura económica tende a iludir-nos quanto ao futuro. Era esta exatamente a linha de argumentação de Passos Coelho. Rui Rio só não se referiu ao diabo, mas está a dizer o mesmo que Passos Coelho disse nos últimos dois anos, que apesar de o país estar melhor, este crescimento pode não ser sustentável e o país não está a fazer as reformas necessárias para poder construir uma economia mais sólida".

"A parte do discurso em que diz que o partido tem de olhar mais para o futuro e não estar tão agarrado ao presente, referindo até que o PSD não é um partido nem de novos nem de velhos, nem vai ter um conflito geracional, é também no sentido de responder a todos os que têm dito que a candidatura de Rui Rio representa um velho PSD, recordando que muitos dos apoiantes de Rio são ex-dirigente do partido. O que ele tenta fazer é ir buscar apoiantes a quase todas as fações, incluindo muitas daquelas que estarão com Santana Lopes".

"Palavra dada é palavra honrada" é uma referência ao tempo de Santana Lopes na Câmara de Lisboa, quando abandonou o cargo para seguir para o governo?

"Seguramente que esse recado era para Santana Lopes. Não deixa de ter muita graça que Rui Rio para dar essa bicada em Santana Lopes tenha usado uma citação de António Costa. Seguramente que Rui Rio nessa altura, quando foi muito desafiado para se candidatar à liderança do PSD, acabando por ter um acordo tácito com Manuela Ferreira Leite para que fosse ela a candidata, porque ele estava a cumprir o mandato na Câmara do Porto, Rui Rio quando vai recordar todo esse histórico não é para relembrar os sociais-democratas de algo que já sabiam, é para começar a campanha política pela liderança do partido e o principal adversário de Rui Rio será Santana Lopes e será ele que Rio terá de combater".

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