Joe: O Dissoluto…?

"A Opinião" de Nádia Piazza, na Manhã TSF.

O ainda comendador Joe Berardo: O Dissoluto Punido ou O Absolvido? O tempo dirá.

Comendador - do latim commendatore,«aquele que recomenda» - é um indivíduo agraciado com uma comenda - do latim eclesiástico commendare, «confiar» - é uma condecoração concedida a pessoas que se destacam nas suas áreas de atuação, desde artistas, políticos, empresários até desportistas. Uma espécie de recompensa simbólica.

Quando surgiu, na Idade Média, a recompensa tinha um significado bem diferente. Naquele tempo, a comenda era um benefício dado a membros do clero ou a militares que demonstravam bravura nas batalhas travadas. Via de regra, a comenda era algo valioso, como o título de propriedade de uma terra, mas, com o passar dos séculos, o seu valor tornou-se simbólico, representado por diplomas, medalhas ou colares.

Se antes o comendador tinha a obrigação de defender a terra recebida contra inimigos, hoje não tem função definida. Atualmente, a distinção confere algum prestígio em certos círculos sociais. Mesmo assim, o título sobrevive no cerimonial de governos e instituições privadas, que seguem uma hierarquia de acordo com a importância do homenageado. "O menor grau é cavaleiro, seguido de oficial, comendador, grande oficial, grã-cruz e, quando existe, grão-colar".

Em "A Morte do Comendador", do romancista japonês, Haruki Murakami, o capítulo «Gosto Daquilo que Vejo e Daquilo que Não Vejo» sintetiza, a certa altura, o estado de alma de muitos:

"A natureza parece prodigalizar a sua beleza a todos, sem distinção entre ricos e pobres. Tal como o tempo. Não, esqueçam; com o tempo, a história é outra. O dinheiro pode ajudar a comprar uma porrada de coisas."

A pintura intitulada "A Morte do Comendador", que deu nome ao livro, remete o leitor para a ópera-bufa "Don Giovanni ou O dissoluto punido", de Mozart, e onde todos, com alegria, dizem ao público que aprenda a lição com o destino de Don Giovanni: "A morte dos pérfidos é sempre igual à sua vida" - e serve de pretexto para que a personagem central do livro procure encontrar um significado para a sua vida através de metáforas.

Cá para mim, o único bem registado em nome do Joe, a dita garagem na Madeira, é em si uma metáfora. Se o universo cabe numa casca de noz, quiçá dentro de uma garagem bafienta no offshore da Madeira?! Segredos insondáveis?! Teias de aranha?! Com a verdade, por vezes, nos enganam.

Já em "Don Giovanni ou O dissoluto absolvido", José Saramago reconta a história do conquistador Don Juan. Baseado na versão de Mozart, o Don Giovanni do escritor português não tem medo de seus atos, pois, para ele, o ser humano é, acima de tudo, livre, mesmo que seja para pecar.

A principal modificação inserida por Saramago no enredo é o desfecho, como indica a troca de "punido" por "absolvido" no título da obra. Saramago desestabiliza lugares-comuns e mostra que nem tudo é o que parece ser. Nela, o seu alvo mais evidente é o da noção de pecado - ou melhor, dos atos humanos considerados pecaminosos. É por isso que o protagonista afirma:

«A terra é toda ela um sepulcrário, é mais a gente que se encontra debaixo do chão que aquela que em cima dele ainda se agita, trabalha, come, dorme e fornica. Parece que os anos que viveste não te ensinaram muito, estátua. A morte dos malvados não é para o inferno que se abre, mas para a impunidade. Ninguém poderá ferir-te nem ofender-te se já estás morto.»

Mas Joe não quis se fingir de morto. Não ele, o narcisista.

O certo é que o suposto "não-património" de Joe tem sido escalpelizado por conta das suas declarações na comissão parlamentar de inquérito à CGD, entre esgares, sorrisos à Mona Lisa, gargalhadas à Joker de um lado e, doutro, estupefação, vergonha, urticárias pelo que há de vir, meio a muita hipocrisia.

Joe sabia ao que ia, sem qualquer pejo ou respeito pelos deputados e pela AR, deu um baile de arrogância e prepotência, jocoso para com políticos e comissões de inquérito em geral, tão funda vai a âncora de Joe. Ele quis tripudiar e foi bem-sucedido, seguro da sua blindagem dentro de um sistema político naturalmente promíscuo com o setor económico, e que ele tão bem domina e ajudou a construir. Mas não só ele.

E garantiu-nos, sem pudor, que tal âncora não está amarrada ao seu navio - quando muito à sua garagem -, que até está numa ilha offshore, rota de antigos descobridores do Novo Mundo e paragem de piratas.

Joe zombou à brava com os deputados, com os seus credores - cúmplices ou não na tramoia! - e com todo um país e os seus concidadãos, que tinham em si uma referência de empreendedor algo exótico da diáspora.

Joe Berardo, o colecionador compulsivo, desde menino, de selos, caixas de fósforos ou postais de navios que atracavam na sua ilha, emigrante bem-sucedido na África do Sul, por conta da exploração de ouro.

Em 1986, com Portugal inserido na Comunidade Europeia e tudo por fazer, fez o homem de negócios regressar e apostar no seu país, num misto de "good business" e vontade de deixar a sua marca.

Nunca curou a compulsividade de colecionador, e em Portugal, deu azo ao gosto de colecionar obras de arte, possuidor de uma das melhores coleções privadas da Europa, segundo o The Guardian. Calma, ele não, a Associação de Coleção Berardo. Não o Joe. E muito menos os seus credores.

E, enquanto o ouro é cavado ou lavrado, a Arte é criação humana, é intelecto e criatividade a burilar, ambos grandes investimentos. E, enquanto o segundo se coleciona, o primeiro paga a mania.

Porque "o dinheiro pode ajudar a comprar uma porrada de coisas". E quando só se tem uma garagem como a de Joe, já se tem muito.

Continuar a ler

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de