Opinião

Não pergunte "o que pode o exercício físico fazer por mim?"

A questão chave, atualmente, é o que todos podemos fazer pela atividade física dos portugueses

O aconselhamento para a atividade física, com base em protocolos formais de intervenção breve, e dirigido a toda a população, deve ser realizado por todos os profissionais de saúde e profissionais de exercício físico, em todas as oportunidades. A prescrição e acompanhamento de uma sessão ou programa de exercício físico, sobretudo para pessoas com doença ou risco moderado/elevado, deve ser realizada por profissionais de exercício físico habilitados ('fisiologistas de exercício') ou por profissionais de saúde especializados (ex. especialistas em medicina desportiva). A formação superior em ciências do desporto e exercício, com uma especialização em fisiologia do exercício / exercício e saúde fornece a melhor preparação para esta função, sempre com experiência prática reconhecida.

Ginásios, profissionais em regime de treino personalizado, programas de base comunitária (ex. promovidos por autarquias), centros de saúde e clínicas de saúde (ex. de reabilitação cardíaca, de medicina do exercício), grupos, associações e clubes desportivos, e também hospitais e farmácias são alguns dos contextos onde se pode e deve fazer este aconselhamento, muitas vezes breve. Sempre e apenas quando as condições o permitem - e o tipo de utente o recomenda, por exemplo, com uma doença que melhora com o exercício terapêutico - deve também fazer-se prescrição e acompanhamento de um programa exercício físico.

Em todos os casos, o aspeto decisivo e diferenciador é a formação e experiência dos profissionais envolvidos. Em todos os casos, será necessário delegar e confiar nos melhores de entre estes, aqueles com formação e experiência mais avançadas. E em todos os casos, e sempre que possível, recomendam-se equipas multidisciplinares, incluindo, para além dos especialistas em exercício físico, médicos de família e outras especialidades, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e enfermeiros, entre outros.

Muitos, e muitas organizações, serão necessários, para atingirmos o desígnio nacional de aumentar a atividade física dos portugueses e respondermos às necessidades da sociedade na área do exercício, atividade física, e redução dos comportamentos sedentários. Precisamos de comunicar eficazmente com a população; precisamos de mudar normas sociais; precisamos de apoiar as boas práticas no terreno; precisamos de continuar a melhorar a formação académica; precisamos de boa formação pós-graduada; precisamos de aplicar a melhor evidência científica; precisamos de saber motivar e mudar comportamentos; precisamos de ser inclusivos e não deixarmos ninguém para trás; precisamos de inovar com tecnologia e sistemas de informação modernos; e precisamos de uma rede profissional capacitada, multidisciplinar e experiente.

Mas, acima de tudo, precisamos de uma visão e de uma estratégia de ação coordenada, inovadora e que consiga envolver todos os que queiram e possam participar: do desporto à saúde, da educação ao poder local, no trabalho ou em família, com a iniciativa privada e também com a sociedade civil. O desafio da (in)atividade física é global mas Portugal está hoje, felizmente, na linha da frente neste domínio, sendo até um exemplo a nível internacional em algumas das suas iniciativas.

Devemos, pois, refletir sobre como podemos, cada um e cada uma, individualmente e com as nossas redes, contribuir para o desígnio nacional de atingirmos um país mais ativo e saudável. Com tolerância, elevação e profissionalismo. Sendo um exemplo pela ação e orientados por uma meta comum, que transcende indivíduos, profissões e instituições. Usando a palavra com precisão e rigor. Reunindo energias e trabalhando em equipa.

Cumpre-nos olhar para o futuro sem receios e participar. Fazer parte. Tendo em mente o desenvolvimento do país e as necessidades de todos, sobretudo os que são demasiado sedentários, doentes, mais jovens, com menos recursos, ou com reduzida autonomia. Os que querem ser mais ativos mas (ainda) não conseguem. E também os que podem ainda vir a querer. Mas respeitando sempre os que têm outras prioridades.

A nossa meta é que aqueles sejam cada vez menos, motivados por vontade própria mas com apoio da sociedade para o conseguirem. Todos somos poucos para lá chegar depressa mas o caminho faz-se caminhando. Exige paciência e persistência. Mas é um projeto coletivo que vale a pena, como dizem hoje as Nações Unidas, a Organização Mundial de Saúde, a Comissão Europeia e tantas outras organizações envolvidas no progresso dos países e das sociedades, na sustentabilidade do nosso planeta, e no bem-estar de todos os seus cidadãos.

Pedro Teixeira, professor da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa; diretor do Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física da Direção-Geral da Saúde.