O admirável mundo novo

"A Opinião" de Nádia Piazza, na Manhã TSF.

Ajuizar a história de um povo em geral, e das suas gentes em particular, é algo de muito delicado e exige um enorme respeito e humildade, sobretudo, pela dor que muitas pessoas ainda trazem na memória, vívidas imagens de uma guerra colonial sangrenta, perdida logo à partida e devoradora de muitos e bons homens e jovens, dos torturados por um regime "mansamente" ditatorial e toda uma geração que os sucedeu em traumas pessoais e coletivos num quase-silêncio.

Ontem comemorou-se os 45 anos do 25 de Abril, o Dia da Liberdade, a Revolução dos Cravos.

Portanto, não me atreverei ajuizar, mas testemunhar, como quem olha com os óculos de outrem, o que me foi dado a conhecer e sentir sobre o que os ecos do 25 de Abril tem tentado deixar em semente de mostarda nos fazedores de impossibilidades, isto é, em todos os Portugueses e em quem de cá fez a sua casa.

Ano após ano, ouço os discursos da praxe proferidos dos melhores púlpitos. Palavras são ditas de cravo no peito, símbolo único e do mais genuíno português que a história deste dia deixou gravado.

Mas neste ano, algo novo rasgou o mesmismo em leitura dos tempos. Que o discurso do Chefe da Nação não pare no seu ponto final. Antes seja a chave-mestra da nossa entrada para esse Novo Futuro. É uma Visão para que muitos programas eleitorais deveriam beber e nele se afogar. No bom sentido, claro.

De todos os momentos formais em que os dirigentes da Nação se nos dirigiram nos últimos tempos, acredito que este dia em particular, 25 de abril de 2019, na sessão dos 45 anos da Revolução, pela clarividência e unanimidade à volta das metas, alvos, da forma - e pedidos de "re"formas - e dos tempos para as concretizar, que já não são os mesmos de há 45 anos, certamente -, este foi aquele que melhor encerrou o pulso e o destino desta Nação.

É muito difícil resumir um mundo de desafios, desafios que vivemos e outros que ainda beiramos viver ou teimamos negar, eleger prioridades e apontar para possíveis saídas, ainda que possam parecer, inalcançáveis. Não o serão.

Quando o homem quer genuinamente, seja em vestes de político ou de cidadão, e ainda que por caminhos diferentes - e viva a democracia (!) -, chegar à outra margem, Portugal foi um império, à custa de loucos desbravadores de oceanos e de assombrosos seres míticos. O impossível fez-se real. Então o que serão esses desígnios agora em comparação? Este é o legado para os novos políticos a serem eleitos em 2019 para a União Europeia e em Portugal.

A ditadura e a guerra colonial deixaram uma nação dividida e traumatizada. Quarenta e cinco anos não são nada em 900 anos. Mas são anos suficientes para curarmos traumas, e sabermos o que queremos enquanto povo: viver com dignidade, ainda que em tempos de escassez de recursos naturais, de graves alterações climáticas, meio a uma crise demográfica, ambicionar fazer a diferença nesta aldeia global agindo localmente, acolher e ser tolerante - porque cada imigrante tem muito para nos dar, ainda que seja para nos testar a paciência (!), que também os há -, e sermos naturalmente dignos do regresso das nossas melhores cabeças e braços que se lançaram pelo mundo a fora, mas que, como bons portugueses que o são, não se desapegam dos cheiros e sabores da sua "terrinha".

(*) Título foi inspirado na obra de Aldous Leonard Huxley, in "Admirável Mundo Novo", sem pretensões de associação.

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