O que acontece entre uma Web Summit e Outra?

Portugal tem adotado medidas audíveis na área de inovação, mas continua abaixo da média em rankings internacionais de tecnologia e competitividade.

Se, durante a Web Summit, Portugal pareceu estar no pináculo da inovação tecnológica e foi apresentado como um hub global de startups e empreendedorismo, porque é que os principais rankings internacionais sobre inovação digital mostram uma realidade diferente?

Todo o apoio que o Governo dispensa à Web Summit está devidamente justificado pelo interesse público nacional. Todos os gestos políticos e medidas práticas de fomento ao empreendedorismo e à inovação, muitas delas espelhadas na Estratégia Nacional para o Empreendedorismo, são também laudáveis. Como Embaixador da StartUp Portugal, sou frequentemente abordado por jornalistas, fundadores de startups e gestores de fundos de capital de risco (venture capital) interessados em conhecer o ecossistema português.

Mas temos que entender porque é que o bom momento do país neste setor ainda não está devidamente refletido em estudos internacionais que comparam Portugal com os seus pares:

O Digital Economy and Society Index (DESI) da União Europeia, que classifica os países-membros com base no seu desempenho digital e competitividade, posiciona Portugal em 16.º lugar, abaixo da média europeia.

O Global Innovation Index do INSEAD, principal ferramenta de mensuração do nível de inovação de países, coloca Portugal na 32.ª posição global, com tendência negativa (2015: 30.ª, 2016: 30.ª, 2017: 31.ª).

O país e as maiores cidades portuguesas não aparecem na maioria dos rankings globais de hubs de inovação e startups (ex.: KPMG Global Technology Innovation report, Global Startup Ecosystem Report 2018).

No IMD Digital Competitiveness Ranking, Portugal ocupa a 32.ª posição entre 63 países (em 2015, atingimos a melhor posição: 29.ª).

O World Competitiveness Report do WEF refere que um dos fatores mais problemáticos para fazer negócios em Portugal é a "capacidade insuficiente para inovar."

Quem analisar com zelo estas fontes de informação constata que as fragilidades portuguesas estão bem identificadas.

Em primeiro lugar, falta capital para inovação. São escassos os fundos de capital de risco, investidores individuais, investidores corporativos. Alguns dos estudos apontam também para as dificuldades em obter crédito. A economia não está irrigada financeiramente. No Reino Unido, entre 2012 e 2017, foram investidos 19 mil milhões de dólares em startups, enquanto em Portugal foram apenas 100 milhões de dólares. Estamos atrás de países sem tradição de startups como a Polónia, Lituânia, Áustria ou Bélgica.

Os três unicórnios portugueses, Talkdesk, OutSystems e Farfetch tiveram o seu crescimento alimentado por investidores estrangeiros. Muitas das startups portugueses que entram na adolescência corporativa precisam de sair do país para continuarem a desenvolver-se. Segundo um estudo da Atomico, somos um dos países com mais fundadores de startups que emigram - uma nova vertente da fuga de cérebros.

Os rankings indicam também que os portugueses ainda não são verdadeiros cidadãos digitais e ávidos consumidores de produtos online. Pelo menos não na fasquia de outros países desenvolvidos. Curiosamente, estamos muito acima da média europeia na oferta de serviços públicos online (e-governo), mas abaixo da linha no que toca ao consumo desses serviços (e-participação). Muitos ainda preferem a repartição pública ao ecrã do computador. Também estamos no topo da cadeia alimentar em infraestrutura de conexão de internet de alta velocidade, mas abaixo da média no uso real de internet (consumir conteúdo, comunicar, fazer compras, usar serviços bancários online).

Stephan Morais, que lidera o fundo português de capital de risco Indico Capital Partners, um dos poucos no mercado nacional e que investe em empresas tecnológicas, descreve à coluna as dificuldades de empresários e consumidores com o uso da internet:

"No setor privado, nota-se a baixa incidência do comércio eletrónico em Portugal, mas também a fraca oferta de soluções digitais, tanto B2C [empresas para consumidores finais] como B2B [empresas para empresas]. Este último facto reflete a alta faixa etária das lideranças destas empresas portuguesas, que relutantemente vão permitindo que o digital mude os seus negócios e a sua interação com clientes."

Se, para uma parte significativa da população, a internet ainda gera ansiedade diante do desconhecido, para muitos outros nem isso chega a provocar: 23% dos portugueses nunca usaram a internet, segundo o Eurostat.

Finalmente, as empresas precisam de abraçar o mundo digital, alertam os rankings. As nossas estatísticas de importação e exportação de produtos tecnológicos são medianas, o uso de Big Data pelas empresas é baixo, a formação de empregados para o mundo digital é insuficiente e o número de patentes na área tecnológica de empresas é marginal. Os estudos alertam também para a queda, até 2016, da formação bruta de capital fixo, que traduz o investimento no país, e destacam a falta de apetite das empresas portuguesas para parceiras estratégicas e joint ventures.

Em conversa com a coluna, a ex-secretária de Estado da Indústria, Ana Teresa Lehmann, e o atual diretor da StartUp Portugal, João Borga, destacam o muito trabalho que ainda falta fazer. Mas ambos chamam a atenção para o programa Indústria 4.0, lançado no ano passado por António Costa, e cujas 64 medidas têm como objetivo qualificar os trabalhadores portugueses dos setores público e privado para as grandes tendências tecnológicas, ao mesmo tempo que se modernizam os setores "tradicionais" da indústria nacional.

Lehmann, responsável pela execução do programa até à sua saída do Governo no mês passado, salienta que 94% das medidas já foram implementadas em cerca de um ano, sendo possivelmente um dos programas com maior rapidez de execução no Governo. Borga destaca também que o programa é "um bom exemplo da ligação de startups a setores mais tradicionais da economia e que esta a trazer para o terreno caso concretos de melhoria no panorama da inovação digital."

Alguns passos importantes estão, portanto, a ser dados, mas é preciso continuarmos a refletir sobre como ultrapassar o menu de fragilidades apontado pelos rankings internacionais. Muitas delas, como indicou Morais, dependem de "mudanças geracionais." Outras exigem proatividade.

Falta em Portugal uma estrutura, politicamente vitaminada e aglutinadora, que assuma a responsabilidade de preparar os cidadãos e as empresas para a 4.ª Revolução Industrial, marcada pela convergência dos mundos físico, digital e biológico. Como já assinalaram alguns políticos portugueses e presidentes de empresas globais de tecnologia - falta um Ministério da Inovação e do Futuro. Graça Fonseca e Marc Benioff, presidente da Salesforce, têm razão.

Esse ministério teria, pelo menos, uma dupla missão. Em primeiro lugar, seria o endereço onde se pensa e planeia o Portugal do futuro. Identificaria as principais tendências globais e auxiliaria todos os ministérios a adotarem as políticas de longo prazo e as práticas necessárias para que Portugal mantenha o seu nível de competitividade e de proteção social perante os desafios futuros. Quem já fez política, mesmo com empenho e boas intenções, sabe que é extremamente difícil ter oxigénio para pensar a longo prazo. No meio do incêndio, o futuro é o dia seguinte. Um Ministério do Futuro - como existe ou existiu nos Emirados Árabes, Suécia ou Coreia do Sul - é uma solução viável para que Portugal continue competitivo em 25-50 anos.

Em segundo lugar, o Ministério seria o epicentro de políticas e iniciativas nacionais que visem melhorar a competitividade tecnológica e digital dos cidadãos e das empresas. Seria o implementador da estratégia nacional de inovação tecnológica e empresarial e poderia abrigar, sob a sua alçada, organizações como a Agência Nacional de Inovação, o IAPMEI, a StartUp Portugal, entre outras. Atualmente, várias políticas de inovação estão desgarradas entre ministérios. É necessário coordenação e assertividade.

Se enfrentarmos com segurança estes desafios, a Web Summit deixará de ser a causa do nosso destaque internacional na área de inovação e passará a ser uma consequência do trabalho que é feito ao longo do ano. Quando não precisarmos da Web Summit para ser vistos como um país inovador, então é porque o somos de facto.

*Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e California-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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