A Opinião

O que é isso do jornalismo que queremos salvar?

"A Opinião" de Fernanda Câncio, na Manhã TSF.

Num momento em que se discute como salvar o jornalismo, ocorre-me que seria bom falar do que é isso, jornalismo.

Orwell disse que é publicar aquilo que alguém não quer que seja publicado; tudo o resto é relações públicas. Gosto muito de Orwell, mas esta definição não é boa; é até perigosa, porque implica que se algo não chatear alguém, se não criar problemas a alguém, não é jornalismo. Já vi muita coisa que não chateia ninguém que é bom jornalismo, e vice-versa. Portanto, não.

Como defini-lo então? Há as definições técnicas, vertidas nos códigos éticos e até na lei como deveres dos jornalistas: informar com rigor e isenção, rejeitando o sensacionalismo e demarcando claramente os factos da opinião; ouvir as partes com interesses atendíveis; abster-se de formular acusações sem provas e respeitar a presunção de inocência; abster-se de recolher declarações ou imagens que atinjam a dignidade das pessoas através da exploração da sua vulnerabilidade; preservar, salvo razões de incontestável interesse público, a reserva da intimidade; não tratar discriminatoriamente as pessoas.

Mas estas regras dizem-nos o que não é jornalismo, não o que é. Dizem-nos que o jornalismo tem de tentar ser justo, dar todos os lados de uma questão; não ser uma máquina de perseguição e destruição, não se aproveitar de situações de fragilidade para "apanhar" pessoas, e, sobretudo, não buscar o lucro e as audiências acima de tudo - é isso que quer dizer "rejeitar o sensacionalismo".

Temos pois uma atividade que visa a rentabilidade mas que não pode ater-se só a ela. Porque tem uma responsabilidade social.

Essa responsabilidade implica que, apesar de ser uma forma de interpretar a realidade para a tornar inteligível, o jornalismo tem de recusar ser simplista. Tem de recusar ser básico. Porque não é tudo uma questão de verdade e mentira; porque não há sempre culpados para apontar, porque o mundo não se divide em bons e maus, nos nossos e nos outros.

É possível, até desejável, que fiquemos mais confusos depois de ler uma boa reportagem do que estávamos ou éramos antes. Não podemos, por exemplo, perguntar seriamente por que caiu uma estrada em Borba sem nos apercebermos da densidade do real.

Salvar o jornalismo não é possível se o público não quiser complexidade e buscar apenas espectáculo e confirmação das suas ideias e preconceitos. Não é possível se continuarmos a deixar chamar jornalismo a algo que não o é - e não estou a falar de fake news.

É costume dizer-se, e bem, que não há democracia sem jornalismo. Menos comum é reconhecer-se que não há jornalismo sem uma democracia madura. Por este andar, Portugal não terá nenhum dos dois.

*a autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990